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Abordagem a pacientes com distúrbios endócrinos

Última revisão: 24/02/2016

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Graham T. McMahon, MD, MMSc

Professor Associado de Medicina, Harvard Medical School, Divisão de Endocrinologia, Diabetes e Hipertensão, Brigham and Women’s Hospital, Boston, MA

 

Robert G. Dluhy, MD

Professor de Medicina, Harvard Medical School, Divisão de Endocrinologia, Diabetes e Hipertensão, Brigham and Women’s Hospital, Boston, MA

 

Artigo original: Desai SP, MD, MPH, Kachalia A, MD, JD. Quality of care: performance measurement and quality improvement in clinical practice. SAM.

[The original English language work has been published by DECKER INTELLECTUAL PROPERTIES INC. Hamilton, Ontario, Canada. Copyright © 2015 Decker Intellectual Properties Inc. All Rights Reserved.]

Tradução: Paulo Henrique Machado.

Revisão técnica: Dr. Lucas Santos Zambon.

 

Sistemas endócrinos

A comunicação intercelular é feita através dos sistemas endócrino, nervoso e imune, que representam uma rede integrada de sinais reguladores. O termo hormônio originalmente se referia aos produtos químicos gerados pelos órgãos endócrinos, porém, mais recentemente, passou a incluir uma gama mais ampla de mediadores fisiológicos formados na corrente sanguínea (como as angiotensinas), ou produzidos por órgãos que, classicamente, não são considerados parte do sistema endócrino (como as gorduras e a pele). Os hormônios agem de diversas formas através de um conjunto de tipos distintos de receptores. Os hormônios podem exercer atividade autócrina sobre a célula de origem, efeitos parácrinos sobre as células vizinhas ou ações endócrinas em sítios distantes.

 

Pacientes endocrinológicos

A maior parte dos pacientes observados pelos endocrinologistas é encaminhada por médicos de atendimento primário, internistas ou outros especialistas que suspeitam da presença ou iniciaram uma avaliação ou tratamento de alguma doença endócrina. Cada vez mais os pacientes estão lendo sobre seus sintomas online e na literatura especializada, e procuram a avaliação de um especialista em endocrinologia.

 

Formas de apresentação de doenças endócrinas

A distribuição dos hormônios em todo o corpo humano resulta em apresentações de doenças endócrinas difusas e variáveis. Muitos pacientes não apresentam queixas específicas, como fadiga ou alterações no peso. Embora algumas síndromes endócrinas (como hipertiroidismo, acromegalia ou insuficiência adrenal) resultem em um conjunto típico de sintomas e características, a maioria dos pacientes experimenta um número limitado de componentes da síndrome e possivelmente não observe os sintomas que não sejam tipicamente sindrômicos. Levando-se em consideração que muitas doenças endócrinas são crônicas e que as doenças crônicas têm efeitos importantes sobre a saúde mental, os pacientes endócrinos geralmente atribuem o estado de depressão ou de ansiedade às suas doenças endócrinas e procuram ajuda de um endocrinologista em busca de uma resolução para os sintomas. Muitos hormônios, como  tiroxina, cortisol e androgênio também afetam diretamente as funções do sistema nervoso central.

 

Histórico endocrinológico

Os hormônios controlam uma quantidade tão grande de aspectos da função corporal que as manifestações das doenças endócrinas são extremamente variáveis [ver a Tabela 1]. Os sintomas e sinais inespecíficos incluem alterações de peso, altura, apetite, hábitos intestinais ou urinários, distribuição de pelos ou menstruação e desenvolvimento de sintomas como sudorese, cefaleia, letargia, ansiedade, depressão e disfunção erétil. Ao contrário dos sintomas e sinais inespecíficos, que geralmente refletem alguma alteração na saúde observada com as doenças sistêmicas, alguns aspectos do histórico podem ser patognomônicos para um distúrbio endócrino. Históricos de hiperpigmentação progressiva em pacientes com perda de peso e anorexia apontam para um diagnóstico de insuficiência adrenal primária (como consequência de níveis elevados do hormônio adrenocorticotrófico e do hormônio estimulador de melanócitos). Históricos de expansão acral com aumento progressivo no tamanho dos anéis e dos sapatos em pacientes hipertensos/diabéticos é uma forte sugestão para o diagnóstico de acromegalia.

Com frequência, um grupo de sintomas típicos sugere a presença de uma síndrome endócrina. Por exemplo, históricos de fraqueza muscular proximal adquirida e de adiposidade centrípeta, em combinação com o início recente de hipertensão e diabetes mellitus, sugerem um diagnóstico de hipercortisolismo.

Os complexos de sintomas da maior ou menor funcionalidade de um distúrbio endócrino geralmente são o anverso um do outro [ver a Tabela 2]. O curso de tempo do complexo de um sintoma pode ser um indício importante de etiologias subjacentes. Por exemplo, o início recente de hipercalcemia grave sugere a presença de algum distúrbio maligno subjacente, enquanto que hipercalcemia leve e de longa duração sugere hiperparatireoidismo primário.

Da mesma forma, históricos de oligomenorreia e hirsutismo progressivo na ocasião do primeiro ciclo menstrual apontam para um diagnóstico da síndrome de ovário policístico. Por outro lado, o início abrupto e progressivo de excesso de hormônio androgênico em mulheres (durante um período de semanas ou meses) é uma indicação importante para o diagnóstico de neoplasia secretora de esteroides.

A busca de históricos anteriores de doenças endócrinas é muito importante, incluindo perguntas específicas sobre diagnósticos anteriores de algum problema endócrino, ou se o paciente fez alguma cirurgia em alguma glândula endócrina, tendo em vista que, embora possivelmente sejam inconsequentes para o paciente, esses históricos fornecem dados importantes para o diagnóstico diferencial. Por exemplo, um histórico de cirurgia cervical poderá fornecer indícios para a etiologia de hiperparatireoidismo primário em pacientes que se apresentarem com hipocalcemia.

Históricos sobre o uso de medicações devem ser enfatizados, tendo em vista que poderão influenciar diretamente o sistema endócrino que estiver sendo investigado. Por exemplo, o uso anterior prolongado de fenitoína ou de glicocorticoides é um fator de risco conhecido para osteoporose. O uso crônico de opiáceos em pacientes com síndromes de dor geralmente causa supressão na secreção de gonadotrofina, resultando em hipogonadismo. Alternativamente, as medicações podem interromper a regulação normal da secreção de hormônios, produzindo anormalidades laboratoriais. Por exemplo, os antagonistas da dopamina (p.ex., metoclopramida ou risperidona) ou os agentes depletores da dopamina (p.ex., reserpina) estão invariavelmente associados à elevação nos níveis de prolactina.

Considerando que muitas doenças endócrinas são crônicas, com impacto substancial sobre o paciente e seus familiares, o médico deve solicitar informações relevantes sobre ocupação, suporte e estressores do paciente. Os históricos familiares de distúrbios endócrinos podem ser informativos, tendo em vista que muitas condições endócrinas têm alguma predisposição genética e podem até indicar a presença de condições autossômicas dominantes, como, por exemplo, as síndromes de neoplasia endócrina múltipla.

 

Tabela 1: Hormônios e Síndromes Associadas

 

 

Glândula

Hormônio

Função Principal

Hiperfunção

Hipofunção

 

 

Hipotálamo

Hormônio antidiurético

Age sobre os rins para preservar o equilíbrio hídrico e eletrolítico.

 

SIADH

Diabetes insípido

 

 

Oxitoxina

Lactação

 

 

 

 

 

Pro-opiomelanocortina

Hormônio precursor de ACTH e MSH.

Escurecimento da pele.

 

 

 

Lobo anterior da hipófise

Prolactina

Descida do leite durante a lactação.

 

Prolactinoma

 

 

 

Hormônio luteinizante

Nas mulheres, age no ovário para estimular a produção de estrogênios e induzir a ovulação.

 

Nos homens, age sobre os testículos para estimular a produção de testosterona.

 

 

 

 

 

Hormônio estimulante de melanócitos (MSH)

Estimula a tonicidade da pele.

Elevada na doença de Addison, escurecimento da pele.

 

 

 

 

Hormônio folículo-estimulante (FSH)

Nas mulheres, estimula a maturação dos folículos ovarianos.

 

Nos homens, age sobre as células de Sertoli e participa da regulação da produção de espermatozoides.

 

 

 

 

 

Hormônio do crescimento (GH)

Age sobre vários tecidos para estimular o crescimento.

 

Acromegalia

Deficiência de GH.

 

Hormônio adrenocorticotrófico (ACTH)

 

Age sobre a glândula adrenal para estimular a produção de cortisol.

 

Doença de Cushing.

Insuficiência adrenal central.

 

Tabela 1: Hormônios e Síndromes Associadas

Glândula

Hormônio

Função Principal

Hiperfunção

Hipofunção

 

Progesterona

Mantém o endométrio em preparação para a gravidez

 

 

 

 

Testosterona

Precursora do estrogênio; age sobre a libido.

 

Hirsutismo, virilização.

Disfunção sexual.

 

Inibina

Regulação de feedback na secreção de FSH pela hipófise.

 

 

 

Testículos

Testosterona

Crescimento masculino secundário às características sexuais, produção de espermatozoides e libido.

Virilização

Hipogonadismo masculino.

 

Tabela 1: (continuação)

Glândula

Hormônio

Função Principal

Hiperfunção

Hipofunção

 

Diidrotestosterona

Algumas características sexuais masculinas secundárias.

 

 

 

 

Inibina

Regulação de feedback na secreção de FSH pela hipófise.

 

 

 

Adiposa

Adiponectina

Regulação da glicose, oxidação de ácidos graxos.

 

 

Diabetes tipo 2

 

Leptina

Regulação do apetite

 

 

 

Sistema gastrointestinal

 

Gastrina

Secreção ácida

Ulceração péptica.

 

 

Grelina

Estimulação da fome.

Síndrome de Prader-Willi, caquexia.

 

Obesidade

Rim

Eritropoietina

Eritropoiese

Síndrome paraneoplásica.

Anemia

 

 

Calcitriol

Absorção de cálcio

Síndrome paraneoplásica.

Hipovitaminose D, hiperparatireoidismo secundário.

SIADH (syndrome of inappropriate antidiuretic hormone secretion) = síndrome da secreção inapropriada de hormônio antidiurético

 

Um exemplo da importância dos históricos familiares é o caso de pacientes com diagnóstico de feocromocitoma. Estudos recentes indicam que 20 a 30% de pacientes com feocromocitoma abrigam mutações na linha germinal, que geralmente são herdadas de uma forma autossômica dominante. Os indícios de uma síndrome familiar que predisponha para feocromocitoma incluem um parente de primeiro grau que também tenha sido diagnosticado com feocromocitoma ou com um feocromocitoma extra-adrenal (paraganglioma); histórico familiar de câncer tireoidiano medular; ou histórico de um parente de primeiro grau consistente com as características fenotípicas da doença de von Hippel-Lindau, como hemangioblastoma retinal ou cerebelar. Da mesma forma, os pacientes com hiperglicemia têm maior probabilidade de ter diabetes tipo 2 como causa, se tiverem parentes ou irmãos com esse tipo de diabetes.

 

Tabela 2: Grupos de Sintomas Contrastantes e Sinais de Maior ou Menor Atividade nas Glândulas Tireoide e Adrenal

 

 

Subatividade

Superativividade

 

Hipotireoidismo

Hipertireoidismo

 

 

Depressão

Ansiedade

 

Sintomas tireoidianos

Ganho de peso

Perda de peso

 

 

Intolerância ao frio

Intolerância ao calor

 

 

Constipação

Hiperdefecação

 

Sinais tireoidianos

Hipertensão diastólica

Hipertensão sistólica

 

 

Bradicardia

Taquicardia

 

 

Doença de Addison

Síndrome de Cushing

 

Sintomas adrenais

Perda de peso

Ganho de peso

 

 

Anorexia

Aumento de apetite

 

Sinais adrenais

Pressão arterial baixa

Hipertensão

 

 

Hiperpigmentação

Atrofia cutânea, equimoses, estrias

 

 

Hipoglicemia

Hiperglicemia

 

 

Exame físico

Os hormônios influenciam todas as partes do corpo humano. O exame físico de pacientes endócrinos inicia logo após sua entrada no consultório médico; fatores como aparência, voz, atitude, mobilidade e comportamento contribuem para uma impressão diagnóstica muito antes do início do exame formal. Muitas doenças endócrinas alteram gradualmente as características físicas de uma maneira que não chegam a ser percebidas pelos pacientes. O acúmulo dessas alterações mínimas pode criar uma aparência obviamente sindrômica para os médicos mais experientes. Os sinais vitais devem ser avaliados cuidadosamente como primeiro passo; peso, pressão arterial e frequência cardíaca são informações particularmente importantes para inúmeras doenças endócrinas. Os exames gerais se caracterizam principalmente pela aplicação de uma estratégia de rastreamento informativo de uma grande variedade de descobertas que, em outras circunstâncias, passariam despercebidas na inspeção geral, incluindo doença cardíaca valvular ou hepatomegalia. De maneira geral, os exames focam as características físicas associadas às síndromes ou características de doenças que estão dentro do diagnóstico diferencial em consideração. Um exemplo da importância do exame físico pode ser observado na avaliação de pacientes com hipertireoidismo. As características físicas gerais que dão suporte ao diagnóstico de hipertireoidismo têm como foco os sinais de excesso adrenérgico: hipertensão sistólica, taquicardia sinusal, aumento na perspiração e tremor distal. Em seguida, o médico direciona o foco do exame para a glândula tireoide com o objetivo de determinar a etiologia da tireotoxicose. O paciente tem bócio? Em caso positivo, o aumento no volume da glândula tireoide é difuso ou uni/multinodular? A glândula está sensível? Para finalizar, as descobertas orbitais de proptose ou de inflamação (quemose, injeção da conjuntiva) são diagnósticas de doença de Graves. Os endocrinologistas devem ter competências especiais para examinar uma ampla variedade de sistemas. A maior parte dos endocrinologistas examina os nódulos tireoidianos como parte dos exames de varredura de rotina.

 

Testes endócrinos

A função endócrina pode ser determinada através da medição do próprio hormônio, estimulando ou suprimindo o ciclo de realimentação, ou medindo a função do receptor hormonal periférico. Com frequência, os testes laboratoriais envolvendo os hormônios são complexos e não intuitivos. O instinto dos médicos leva à medição de hormônios com suspeita de serem diretamente etiológicos. Entretanto, os ciclos de realimentação endócrina significam que, embora um determinado tipo de hormônio seja mensurável, a medição direta geralmente não é muito útil e poderá até induzir interpretações incorretas. Consequentemente, a avaliação de problemas endócrinos em geral incorpora a medição de pares de testes, com frequência incluindo o hormônio de órgãos-alvo e o respectivo hormônio trófico regulador [ver a Tabela 3]. Dessa forma, os componentes do sistema de realimentação poderão ser compreendidos nos respectivos contextos. A Figura 1 mostra como usar os ciclos de realimentação regulando a homeostase de cálcio no diagnóstico diferencial de hipercalcemia.

 

Tabela 3: Abordagem aos Testes e Tratamentos Endócrinos

 

 

Suspeita de Hipofunção

Suspeita de Hiperfunção

 

Causa

Destruição ou atrofia da glândula.

Tumor / hiperplasia

 

 

Biossíntese deficiente.

Estimulação autoimune.

 

Diagnóstico

Tentativas para estimular a produção.

 

Tentativas para suprimir a produção.

 

Tratamento

Reposição hormonal.

Interferência na produção do hormônio ou remoção da glândula.

 

 

Ocasionalmente, a disfunção endócrina é tão sutil que as vias reguladoras precisam ser desafiadas fisiologicamente para dar uma visão adequada de sua atividade e para demonstrar a presença de alguma perturbação metabólica. Nessas circunstâncias, os endocrinologistas utilizam testes provocativos e supressivos para fazer a distinção entre função glandular normal e anormal. A Figura 2 mostra como alterações fisiológicas nos níveis do hormônio do crescimento poderão ser usadas para detectar excesso e insuficiência daquele hormônio.

Há várias razões adicionais que tornam os diagnósticos endócrinos mais complexos do que em outras áreas da medicina interna. A secreção de muitos hormônios endócrinos é episódica e sua concentração varia ao longo do tempo. Alguns níveis variam dentro de poucos minutos (como as catecolaminas), outros alteram no período diurno do ciclo sono-vigília, alguns variam em períodos de semanas (como o estradiol) e outros variam durante toda a vida (como a testosterona).

 

 

 

 

Figura 1: Ciclos de realimentação que regulam a homeostase de cálcio no diagnóstico diferencial de hipercalcemia. PTH (parathyroid hormone) = paratormônio; PTHrp (parathyroid hormone-related protein) = proteína relacionada ao paratormônio.

 

 

 

 

Figura 2: Níveis representativos de hormônio do crescimento (GH) durante os testes de estimulação com arginina (a) e durante os testes de supressão com administração oral de glicose (b) podem ser usados no diagnóstico de deficiência de hormônio do crescimento GHD e acromegalia, respectivamente.7,8

 

Consequentemente, é extremamente importante que os endocrinologistas tenham consciência do momento exato de fazer os testes e interpretem os resultados no contexto da hora do dia, tempo do ciclo ou tempo de vida [ver a Tabela 4]. De maneira geral, as concentrações plasmáticas dos hormônios são muito baixas. Por exemplo, as concentrações de insulina, tiroxina livre ou hormônios hipofisários estão na faixa picomolar, isto é, um milhão de vezes mais baixas que as concentrações das proteínas principais, tais como a albumina. É imprescindível que os endocrinologistas tenham conhecimento dos requisitos básicos para a preparação de amostras, tendo em vista que esse fato poderá afetar substancialmente a precisão das medições. Muitos hormônios em circulação têm ligação com proteínas, embora a maior parte dos ensaios faça a medição total do hormônio com ligação e sem ligação. Os endocrinologistas medem ou estimam a concentração hormonal “livre” ou sem ligação, levando-se em conta que o meio seja biologicamente ativo. Outros hormônios, como os androgênios e os estrogênios podem afetar a produção hepática desses hormônios de ligação e, consequentemente, devem ser levados em conta nas interpretações dos resultados dos ensaios que fazem a medição da concentração total de um determinado hormônio.

Além disso, os ensaios endócrinos apresentam um grau natural de variabilidade, seja em termos de paciente ou de acordo com a população e a faixa etária. Portanto, a interpretação dos resultados dos ensaios endócrinos laboratoriais exige que o médico tenha conhecimento das faixas normais para idade e gênero para uma descoberta específica.

Ocasionalmente, talvez seja muito difícil interpretar os testes endócrinos por causa das dificuldades metodológicas ou da variabilidade nos resultados (p.ex., catecolaminas plasmáticas). Embora muitos testes sejam sensíveis e específicos, eles apresentam variações inatas intraensaio e interensaio que poderão transformar a tomada de decisão em um grande desafio. É particularmente importante interpretar testes que possam apresentar resultados fora da faixa normal no contexto de pacientes individuais. Em ambientes clínicos cada vez mais conscientes dos custos, é importante ficar atento para os custos dos testes (alguns testes endócrinos podem ter custos excessivamente elevados), de modo que geralmente é mais prudente fazer testes por etapas do que fazer todos os testes de uma só vez.

 

Tabela 4: Variabilidade nas Concentrações de Hormônios Selecionados ao Longo do Tempo

 

Variação

Hormônio

 

Mínima

TSH

Prolactina

 

Em um dia

Epinefrina

ACTH

Cortisol

GH

 

Em um mês

Estradiol

LH

 

Em um ciclo de vida

FSH

Estradiol

IGF-1

Testosterona

 

ACTH (adrenocorticotropic hormone) = hormônio adrenocorticotrófico; FSH (follicle stimulating hormone) = hormônio folículo-estimulante; GH (growth hormone) = hormônio do crescimento; IGF-1 (insulin-like growth factor-1) = fator de crescimento-1 semelhante à insulina; LH (luteinizing hormone) = hormônio luteinizante; TSH (thyroid stimulating hormone) = hormônio estimulante da tireoide.

 

Imagens em endocrinologia

O avanço tecnológico nos estudos por imagens facilitou a tipificação precisa da estrutura e das características teciduais de quase todos os órgãos endócrinos. A presença de anormalidades “incidentais” nos tecidos glandulares é comum, como, por exemplo, neoplasmas adrenais, tireoideos e hipofisários conhecidos por “incidentalomas”. A Figura 3 apresenta um algoritmo diagnóstico que descreve a avaliação de incidentalomas. A capacidade para fazer a distinção entre benigno e maligno e entre funcional e não funcional é um componente importante da avaliação diagnóstica. Os resultados dos estudos de imagens podem ter um interesse informativo especial para os endocrinologistas, tendo em vista que sempre há alguma correlação entre anormalidades funcionais e estruturais; consideradas em conjunto, essas anormalidades aumentam a probabilidade de diagnósticos corretos. As imagens de medicina nuclear vêm sendo utilizadas cada vez mais intensamente para identificar anormalidades funcionais, assim como para identificar adenomas paratireoideos ou feocromocitomas, e para discriminar causas de hipertireoidismo através de varreduras de iodo radioativo na tireoide. Levando-se em consideração que muitos órgãos endócrinos são pequenos e as características das imagens são muito sutis, os médicos que cuidam de pacientes endócrinos devem ser incentivados a rever as imagens e discutí-las com o radiologista.

 

 

 

 

Figura 3: Algoritmo diagnóstico descrevendo a avaliação de incidentaloma. DHEAS (dehydroepiandrosterone sulfate) = sulfato de desidroepiandrosterona.

 

Endocrinologista

O arquivo de dados da American Medical Association indica que há aproximadamente 5.000 endocrinologistas trabalhando nos Estados Unidos. Os endocrinologistas trabalham em diversas áreas clínicas, de pesquisas e na educação em hospitais, clínicas médicas, instituições federais e empresas industriais. Existem em torno de 400 posições de treinamento em endocrinologia em aproximadamente 130 programas nacionais, sendo que cerca da metade dessas posições são preenchidas anualmente por médicos licenciados em outros países. A expectativa é que ocorra uma retração na força de trabalho nos próximos dez anos como consequência de aposentadorias e da perda de médicos licenciados no exterior que retornam aos respectivos países de origem.

 

Relacionamento com cuidados crônicos

O atendimento médico crônico extensivo de muitos pacientes portadores de doenças endócrinas complementa os esforços de regulação dos sistemas hormonais. A dependência de atendimento crônico exige que os endocrinologistas desenvolvam expertise específica para o gerenciamento de enfermidades em longo prazo. Muito provavelmente os pacientes se disponham a participar de mudanças comportamentais construtivas saudáveis a partir do momento em que passem a conhecer sua doença, confiem do provedor de serviços médicos e tenham participado de planos de saúde. O modelo de atendimento crônico [ver a Figura 4], uma estrutura organizacional bem definida com foco em melhorias no gerenciamento e na prática de cuidados crônicos, se aplica especificamente ao tratamento de pacientes endócrinos. Evidências significativas dão suporte à eficácia do modelo, que abrange seis conceitos distintos identificados como componentes modificáveis da prestação de serviços médicos: suporte organizacional, sistemas de informações clínicas, desenho do sistema de tratamento, suporte para tomada de decisões, suporte ao autogerenciamento e recursos comunitários. O comprometimento com melhorias contínuas na qualidade usando ferramentas, como o modelo de atendimento crônico melhora os resultados para os pacientes e resulta em práticas mais eficientes e mais eficazes.1

 

 

 

 

Figura 4: Modelo de atendimento crônico. Adaptado, com permissão, do American College of Physicians, com base no trabalho de Wagner EH, Gerenciamento de doenças crônicas: o que é preciso para melhorar o tratamento de enfermidades crônicas? Eff Clin Pract 1998:1:2-4.

 

A essência das interações centralizadas nos pacientes é a capacidade de comunicação, de modo que atenda bem suas expectativas e represente uma grande variedade de cenários sociais, culturais e linguísticos. Levando-se em consideração que, em última análise, os pacientes têm de tomar muitas decisões sobre sua saúde, os médicos devem se esforçar para mantê-los bem informados. Alguns estudos demonstraram por repetidas vezes que fatores como ocupação, renda, educação, aculturação, proficiência no idioma inglês e nacionalidade poderão criar disparidades no atendimento médico; mais de um terço de pacientes têm conhecimentos limitados sobre temas relacionados à saúde.2 As prioridades dos pacientes devem ser incorporadas aos planos de tratamento tanto quanto possível para maximizar o potencial de adesão. A sensibilidade às crenças dos pacientes, utilizando o tempo necessário para ouvir, negociar, priorizar e explicar, possivelmente melhore o gerenciamento das medicações e reduza as hospitalizações e os maus resultados para a saúde.3

Levando-se em consideração que muitas doenças endócrinas exigem mudanças comportamentais, a educação é extremamente importante para os pacientes endócrinos. A educação dos pacientes ajuda a incentivar a autossuficiência de modo que os indivíduos possam responder as suas fisiologias e aderir mais completamente aos planos de tratamento.

Cada vez mais os endocrinologistas exercem a profissão com equipes ou geralmente lideram equipes de provedores de serviços médicos, incluindo provedores primários, enfermeiras, educadores, farmacêuticos, nutricionistas, fisioterapeutas e consultores em especialidades médicas. Esse contexto exige habilidades específicas em comunicação, compartilhamento eficaz e seguro de informações médicas e introvisão nas respectivas habilidades dos membros das equipes.

 

Autoavaliação e os endocrinologistas

Os provedores de tratamento endócrino não estão livres da tendência que os médicos têm de superestimar suas competências em domínios clínicos, em comparação com medições objetivas do conhecimento e do desempenho. Ao invés de continuar tentando treinar médicos para serem assistentes mais precisos, as descobertas das pesquisas indicam que os médicos se beneficiam de programas de aprendizagem que facilitam a reflexão sobre sua prática clínica, ajudam os médicos a procurar respostas para os problemas clínicos que enfrentam, comparam seus conhecimentos e habilidades com as orientações da prática clínica e benchmarks, e facilitam a obtenção de feedbacks dos pares e da equipe médica.4,5 O uso crescente de prontuários médicos eletrônicos deveria tornar cada vez mais direta a auditoria das autoavaliações e da prática clínica. O rastreamento de populações de pacientes (tais como pacientes portadores de doenças crônicas como diabetes tipo 1, câncer tireoideo ou insuficiência adrenal) possivelmente assegure o cumprimento das metas do tratamento pelos pacientes.

 

Comprometimento com a tecnologia

Os avanços tecnológicos facilitam a comunicação entre os endocrinologistas e seus pacientes.6 A maioria dos pacientes nos Estados Unidos tem acesso cada vez maior aos computadores e ao correio eletrônico (e-mail) de modo que pode acessar informações eletrônicas e se comunicar mais rapidamente e de forma dessincronizada com seus provedores de serviços de saúde. Cada vez mais os pacientes conseguem acumular informações fisiológicas longitudinais (com a glicosimetria, por exemplo) e comunicar esses dados eletronicamente.

O gerenciamento efetivo dos diversos grupos de informações eletrônicas sobre histórico de pacientes, dados de estudos de imagens e de testes laboratoriais, medicações, alergias e monitoramento fisiológico em curso não apenas cria novas demandas para os endocrinologistas, mas cria também novos paradigmas para o tratamento de pacientes endócrinos. Esses esforços pessoais, sistemáticos e técnicos para melhorar o atendimento médico oferecem aos pacientes o conhecimento e o suporte que necessitam para fazer mudanças que melhorem a própria qualidade de vida e a vida de seus familiares.

 

Os autores não mantêm nenhuma relação comercial com os fabricantes de produtos e com os fornecedores de serviços mencionados neste capítulo.

 

Referências

 

1.                  Warm EJ. Diabetes and the chronic care model: a review. Curr Diabetes Rev 2007;3:219–25.  

2.                  Paasche-Orlow M. Caring for patients with limited health literacy: a 76-year-old man with multiple medical problems. JAMA 2011;306:1122–9.  

3.                  Elders MJ. Role of endocrinologists in eliminating health care disparities. Endocr Pract 2009;15:612–23.  

4.                  Horsley T, O’Neill J, McGowan J, et al. Interventions to improve question formulation in professional practice and self-directed learning. Cochrane Database Syst Rev 2010;(5):CD007335.

5.                  McGowan JL, Grad R, Pluye P, et al. Electronic retrieval of health information by healthcare providers to improve practice and patient care. Cochrane Database Syst Rev 2009;(3):CD004749.

6.                  Kaufman N. Information technology in the service of diabetes prevention and treatment. Int J Clin Pract Suppl 2011;(170):47–54.  

7.                  Arafat AM, Möhlig M, Weickert MO, et al. Growth hormone response during oral glucose tolerance test: the impact of assay method on the estimation of reference values in patients with acromegaly and in healthy controls, and the role of gender, age, and body mass index. J Clin Endocrinol Metab 2008;93:1254–62.   

8.                  Prodam F, Genoni G, Bellone S, et al. Effect of arginine infusion on ghrelin secretion in growth hormone-sufficient and GH-deficient children. Int J Endocrinol Metab 2012;10:470–4.

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