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Glucosamina na osteoartrose de quadril

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 14/09/2008

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Glucosamina na osteoartrose de quadril


Efeito do sulfato de glucosamina na osteoartrose de quadril – um estudo randomizado

Effect of glucosamine sulfate on hip osteoarthritis. A randomized trial. Ann Intern Med. 2008;148:268-77 1 [link para o abstract].

 

Fator de impacto da revista (Annals of Internal Medicine): 14,780


Contexto Clínico

            A eficácia da glucosamina no alívio sintomático e na modificação da história natural da osteoartrose (OA) é controversa e persiste sob intenso debate. Para se avaliar se o sulfato de glucosamina tem algum efeito sobre os sintomas e a progressão estrutural da osteoartrose de quadril os autores realizaram um ensaio clínico randomizado na atenção primária.

 

O Estudo

            Ensaio clínico randomizado com 222 pacientes acompanhados em serviços de atenção primária em Rotterdam, na Holanda. Os pacientes foram recrutados pelos seus médicos generalistas da atenção primária sendo elegível quem preenchesse os critérios clínicos para OA de quadril do American College of Rheumatology. O estudo foi cego, controlado com placebo e randomizado. Os pacientes foram acompanhados por 2 anos. O grupo da intervenção recebeu 1500 mg/dia de sulfato de glucosamina. A randomização foi feita por blocos de seis e estratificada (vide Dicas de Epidemiologia e Medicina Baseada em Evidências) por escore radiológico de Kellgren e Lawrence < 2 vs = 2, e por osteoartrose local vs disseminada. Os desfechos primários foram escala de WOMAC (Western Ontario and  McMaster Universities) para dor e função durante os 24 meses e estreitamento do espaço articular após os 24 meses. Os desfechos secundários foram escala de WOMAC para dor, função e rigidez após os 3, 12 e 24 meses, escala analógica visual para medir dor na última semana do estudo e uso de medicação analgésica. Após a randomização, no início do estudo, os dois grupos apresentavam características demográficas e clínicas semelhantes. Os autores relatam que o estudo foi financiado pelo Erasmus Medical Center e não recebeu nenhum suporte da indústria farmacêutica.

 

Resultados

            O escore de WOMAC para dor e função não diferiu entre os dois grupos, bem como o estreitamento do espaço articular após 24 meses. Os desfechos secundários também não apresentaram nenhuma diferença entre os dois grupos. De uma forma geral o estudo não mostrou nenhum benefício do sulfato de glucosamina na osteoartrose de quadril.

 

Aplicação para a Prática Clínica

            Embora a glucosamina seja usada para diminuir a dor, melhorar a função e diminuir a progressão da lesão articular por milhões de pacientes com osteoartrose há mais de 4 décadas, seu real efeito sobre estes desfechos ainda não foi comprovado. Muitos dos estudos com glucosamina padecem de alguns vieses, particularmente inadequação do ocultamento da seqüência de alocação e financiamento da indústria farmacêutica. Além disso, a maioria dos estudos envolveu pacientes com osteoartrose de joelhos. O presente estudo avaliou pacientes com osteoartrose de quadril num estudo bem conduzido, com randomização adequada, usando dose padronizada de sulfato de glucosamina e sem financiamento da indústria farmacêutica e não mostrou nenhum benefício da glucosamina sobre dor, função ou progressão de lesão articular. Este editor acredita que o uso do sulfato de glucosamina em pacientes com perfil semelhante ao do estudo não deve ser realizado. Não se descarta, entretanto, que a glucosamina possa ter algum efeito em pacientes com OA de joelhos ou mesmo em pacientes com OA de quadril mais avançada que a dos pacientes do estudo em questão.

 

Dicas de Epidemiologia e Medicina Baseada em Evidências

Randomização Estratificada

            A randomização estratificada2 é uma maneira de se alcançar uma boa homogeneidade entre os grupos para uma determinada variável prognostica. A randomização simples, e mesmo a randomização em blocos, pode produzir desequilíbrios nas características de base dos grupos de comparação apenas pelo acaso (“chance imbalances”), particularmente em ensaios clínicos pequenos, de maneira que variáveis com valor prognóstico podem não estar homogeneamente distribuídas entre os grupos de comparação, resultando no assim chamado viés do acaso (“chance bias”). Neste tipo de randomização, listas separadas de alocação são usadas para cada subgrupo (estrato) com relação à variável prognostica. No presente estudo, listas separadas de randomização foram feitas para pacientes com escore radiológico de Kellgren e Lawrence < 2 e com escore = 2, no caso da variável alteração radiológica da articulação na osteoartrose, e listas separadas de randomização foram feitas para pacientes com osteoartrose local (apenas quadril) e pacientes com osteoartrose disseminada. Deve-se ressaltar que a randomização estratificada deve ser necessariamente baseada em uma randomização por blocos dentro de cada estrato, o que também foi feito no presente estudo, que utilizou blocos de seis pacientes dentro de cada estrato. Assim, podemos nos assegurar que as duas variáveis para as quais foram realizadas estratificações estarão homogeneamente representadas nos grupos de intervenção e placebo. Quando o ensaio clínico é grande, a estratificação e a randomização por blocos não trazem nenhum benefício adicional, contribuindo apenas para aumentar a complexidade do estudo.

 

Bibliografia

1.Rozendaal RM, Koes BW, van Osch GJ, Uitterlinden EJ, Garling EH, Willemsen SP, et al. Effect of glucosamine sulfate on hip osteoarthritis. A randomized trial. Ann Intern Med. 2008;148:268-77.

2.Olmos RD; Martins, HS. Ensaios clínicos – Princípios teóricos. In “Epidemiologia. Abordagem Prática”. Sarvier, 1ª Edição, 2005.

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