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Consumo de café pode reduzir a progressão da fibrose na esteato-hepatite não alcoólica

Autor:

Carlos Eduardo Marcello

Médico Assistente da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU-USP).

Última revisão: 03/05/2012

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Área de Atuação: Medicina Ambulatorial

 

Especialidade: Medicina de Família, Clínica Médica

 

Resumo

Este estudo demonstrou uma associação entre consumo de café e uma redução significativa no risco de fibrose em pacientes portadores de esteato-hepatite não alcoólica (EHNA).

 

Contexto clínico

Associação entre consumo de café e risco diminuído de doença hepática foi identificada há cerca de 20 anos. Inicialmente, a relação foi percebida particularmente com a hepatopatia alcoólica.2 Em seguida, encontrou-se a mesma relação com cirroses de outras etiologias.3-8 Nos últimos anos, surgiram pesquisas que vincularam consumo de café com indicadores clínicos e histopatológicos de menor progressão da fibrose na hepatite C.3 Desde a década de 1990 tem havido um aumento na prevalência da esteato-hepatite não alcoólica, assim como ocorre com outras condições, como diabetes, obesidade e a chamada síndrome metabólica. Apesar da falta de dados epidemiológicos robustos, acredita-se que a esteato-hepatite esteja entre as doenças hepáticas mais comuns, podendo ser causa importante de diminuição de anos de vida na população em geral. Por causa disto, os autores procuraram investigar a relação entre o consumo de café e cafeína e o risco de progressão de fibrose em pacientes portadores de esteato-hepatite não alcoólica (EHNA).

 

O estudo

Pacientes assintomáticos sem doença hepática conhecida foram rastreados por ultrassonografia do quadrante superior direito do abdome. Os participantes com ultrassonografia normal serviram de controles, enquanto os pacientes com esteatose se submeteram a biópsia de fígado e foram categorizados em 3 grupos: portadores de esteatose isolada (sem EHNA), EHNA com fibrose estágio 0-1 e portadores de EHNA com fibrose estágio 2-4. Um questionário validado foi utilizado para avaliar o consumo de cafeína. Dos 306 pacientes, 150 eram do sexo feminino, 192 eram de cor branca e a idade média era de 53,8 anos. A ingestão média de cafeína específica do café variou significativamente entre os grupos com EHNA, de 256 mg/dia no grupo EHNA fibrose 0-1 a 153 mg/dia no grupo EHNA fibrose 2-4. Entre os pacientes com EHNA, o consumo de café (mas não o consumo geral de cafeína) esteve inversamente correlacionado com o estágio de fibrose 2-4 (p=0,015). A relação com a ingestão de cafeína do café, mas não com a cafeína de um modo geral, sugere que outras propriedades do café, que não a cafeína, podem afetar a progressão da doença na população de pacientes portadores de EHNA.

 

Aplicações para a prática clínica

Os achados deste estudo mostram que a ingestão de café está associada a menor progressão da fibrose hepática em pacientes portadores de EHNA. Por se tratar de estudo transversal, não é possível estabelecer se essa relação é ou não causal. Estudos adicionais são necessários para explorar tal possibilidade. Enquanto isso, o consumo moderado de café pode ser uma recomendação benéfica no tratamento e no acompanhamento de pacientes portadores de EHNA.

 

Glossário

Estudos transversais: são uma classe de métodos de pesquisa que envolvem a observação de todos os participantes de uma população, ou um subconjunto representativo, em um ponto específico no tempo. Utilizando o estudo aqui comentado meramente como um exemplo para se entender o mecanismo dos estudos transversais e o conceito de que “associação” é diferente de “causa”, podemos dizer que, nos estudos transversais, o fator em estudo ou o fator de risco (p. ex., a ingestão de café) quando associado a um efeito ou desfecho (p. ex., grau de fibrose hepática), tem3 significados possíveis:

 

a)  o fator em estudo pode ser realmente a causa do efeito (café reduzindo a fibrose);

b)  pode haver uma causa comum a ambos (p.ex., obesidade e/ou diabetes poderiam ser as causas da fibrose hepática e também de inapetência por tomar café);

c)  o efeito pode ser causado pelo fator em estudo (p. ex., o aparecimento de fibrose hepática poderia causar uma aversão em tomar café).

 

Portanto, os estudos transversais sugerem associação. Eles não demonstram causalidade, uma vez que a investigação se dá em um determinado ponto no tempo e não há uma perspectiva evolutiva.

 

Bibliografia

1.   Molloy JW, Calcagno CJ, Williams CD, Jones FJ, Torres DM, Harrison SA. Association of coffee and caffeine consumption with fatty liver disease, nonalcoholic steatohepatitis, and degree of hepatic fibrosis. Hepatology 2012 Feb; 55:429. [link para o artigo]

2.   Klatsky A, Armstrong M. Alcohol, smoking, coffee, and cirrhosis. Am J Epidemiol 1992; 136:1248-57. [link para o artigo]

3.   Casiglia E, Spolaore P, Ginocchio G, Ambrosio G. Unexpected effects of coffee consumption on liver enzymes. Eur J Epidemiol 1993; 9:293-7. [link para o artigo]

4.   Corrao G, Zambon A, Bagnardi V, D'Amicis A, Klastky A. Coffee, caffeine, and the risk of liver cirrhosis. Ann Epidemiol 2001; 11:458-65. [link para o artigo]

5.   Klatsky A, Morton C, Udaltsova N, Friedman G. Coffee, cirrhosis, and transaminase enzymes. Arch Intern Med 2006; 166:1190-5. [link para o artigo]

6.   Gallus S, Tavani A, Negri E, La Vecchia C. Does coffee protect against liver cirrhosis? Ann Epidemiol 2001; 12:202-5.

7.   Tverdal A, Skurtveit S. Coffee intake and mortality from liver cirrhosis. Ann Epidemiol 2003; 13:419-23. [link para o artigo]

8.   Ruhl E, Everhart J. Coffee and caffeine consumption reduce the risk of elevated serum alanine aminotransferase activity in the United States. Gastroenterology 2005; 128:24-32. [link para o artigo]

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