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Paciente de 61 Anos de Idade com Tosse e Confusão Mental

Autor:

Rodrigo Antonio Brandão Neto

Médico Assistente da Disciplina de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Última revisão: 18/09/2017

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Paciente de 61 anos de idade, sexo feminino, moradora de rua, já tendo sido tratada de tuberculose, sem outros antecedentes conhecidos. Procura o departamento de emergência com quadro de tosse há 2 semanas, com saída de expectoração purulenta.

Ao exame inicial, apresenta confusão mental e sonolência, mas sem déficits focais ao exame neurológico: pressão arterial (PA), 110x80mmHg; frequência cardíaca (FC), 60bpm; temperatura, 35,8ºC; SaO2, 92%. Realizou tomografia computadorizada (TC) de crânio sem alterações. Ao exame físico, apresentava apenas crepitações em base à ausculta pulmonar e bulhas cardíacas diminuídas, com edema periférico discreto.

A TC de tórax demonstrou raras opacidades em base que poderiam ser associadas a processo crônico; porém, foi iniciada antibioticoterapia com ceftriaxone. Não foi constatado tromboembolismo pulmonar na angiotomografia de tórax. A paciente apresentava derrame pleural e pericárdico, conforme se pode ver na Figura 1.

 

 

TC: tomografia computadorizada.

Figura 1 - TC de tórax.

 

Os exames laboratoriais apresentavam:

               5.490 leucócitos/mm3 com 70% de neutrófilos, sem desvio à esquerda;

               Hb 10,4g/dL com VCM de 92;

               270.000 plaquetas/mm3;

               D-dímero: 4.390;

               Creatinina: 0,9mg/dL;

               Ureia: 35mg/dL;

               Na: 136meq/L;

               K: 4,2meq/L;

               DHL: 360u/L;

               Glicemia: 98mg/dL;

               Proteínas totais de 6,1 com albumina de 3,4g/dL.

 

O líquido pleural apresentava:

               DHL: 55u/L;

               Glicose: 89mg/dL;

               Proteínas do líquido pleural de 2,7g/dL com albumina de 2,0g/dL;

               180 células com 80% de linfócitos.

 

Paciente com quadro de tosse e confusional, com TC de crânio normal e sem outras alterações, com líquido pleural sugestivo de transudato, pois apresenta DHL pleural baixo com relação pleural/sérica menor que 0,6 e relação proteínas pleural/sérica menor que 0,5, preenchendo, assim, critérios de transudato e gradiente albumina sérico pleural de 1,4; portanto, característico de transudato.

A princípio, o quadro de confusão mental foi atribuído à presença de foco pulmonar infeccioso, mas a falta de melhora com a antibioticoterapia fez com que fossem consideradas outras hipóteses. O fato de a paciente apresentar temperatura levemente hipotérmica com frequência cardíaca relativamente baixa em quadro pneumônico, além de derrames cavitários, levou à consideração do diagnóstico de hipotireoidismo, que foi confirmado com a presença de TSH de 70u/L e T4 livre de 0,03.

Foi introduzido o levotiroxina em dose de 50mcg/dia com melhora progressiva da paciente. O estado mixedematoso, ao contrário da tempestade tireoidiana, não tem critérios diagnósticos específicos, o que dificulta o diagnóstico, e a paciente não apresentava o importante edema periférico e facial característicos do mixedema.

O estado mixedematoso representa um estado extremo de descompensação com alta morbidade e mortalidade. O estado mixedematoso ocorre, em geral, em pacientes que apresentam hipotireoidismo severo e de longa data. É grave e, se não tratado de forma apropriada, evolui com alta mortalidade.

Apesar de o termo coma mixedematoso ser adotado para descrever a doença, a maioria dos pacientes não se apresenta comatoso, embora a alteração do nível de consciência seja universal. Os pacientes apresentam quase que invariavelmente algum fator precipitante, sobretudo infecções; causando alteração homeostática e precipitando o quadro.

Outros fatores que podem precipitar o quadro são as infecções, principalmente a pneumonia e a urosepse. Eventos cardio e cerebrovasculares também podem acelerar a sua ocorrência, assim como o uso de certas medicações como anestésicos e outras que deprimam o sistema nervoso central.

Existem três alterações-chave em pacientes com estado mixedematoso que podem fazer o diagnóstico, que são a alteração do estado mental, a perda da termorregulação e a presença de fator precipitante como exposição ao frio, infecções, hemorragia, entre outros, que precisam ser investigados ativamente.

No caso da paciente aqui tratada, embora não tenha ficado claro se se trata de um quadro de estado mixedematoso, o hipotireoidismo parecia definitivamente associado ao quadro confusional mental.

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