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Antidepressivos e Estabilizadores de Humor

Última revisão: 17/09/2015

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Reproduzido de:

Formulário Terapêutico Nacional 2010: Rename 2010 [Link Livre para o Documento Original]

Série B. Textos Básicos de Saúde

MINISTÉRIO DA SAÚDE

Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos

Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos

Brasília / DF – 2010

 

12.2  Antidepressivos e estabilizadores de humor

Os transtornos afetivos constituem um grupo de condições mentais caracterizadas por alterações de humor. Compreendem episódios e transtornos depressivos, distimia (neurose depressiva)e transtorno afetivo bipolar. Os distúrbios depressivos englobam depressão maior, distimia e tipos não-especificados de depressão. As diversas apresentações da doença depressiva não parecem condicionar diferenças de respostas farmacológicas.

A depressão na infância e na adolescência tem sido alvo de interesse dos pesquisadores. É escassa a prova de benefício de tratamento na criança, talvez por esse tipo de depressão apresentar alto grau de remissão espontânea. Embora ainda o tratamento farmacológico seja tema controvertido ao tratamento posterior psicoterápico, sendo aquele reservado a casos mais graves e persistentes, em crianças com mais de 10 anos de idade, administrado sob cuidadoso acompanhamento, por tempo limitado e em combinação com psicoterapia. Revisão Cochrane de 13 estudos que compararam antidepressivos tricíclicos a placebo concluiu que o tratamento farmacológico não foi eficaz no controle da depressão em indivíduos na pré-puberdade. Há preocupação com a indução de comportamentos suicidas em adolescentes em uso de antidepressivos. Ensaio clínico que comparou a associação de inibidores seletivos da recaptação de serotonina com terapia cognitivo-comportamental a inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) isoladamente mais cuidado clínico usual, em adolescentes com depressão moderada a grave, demonstrou melhora em 57% e insucesso em 20% ao fim de 28 semanas, não revelando que a associação contribuísse para os desfechos em comparação ao grupo controle.

A depressão na gravidez e no pós-parto pode requerer tratamento farmacológico. Revisão Cochrane avaliou a prevenção de depressão pós-parto por meio de antidepressivos, incluindo a nortriptilina, dados logo após o parto a mulheres que apresentaram o problema em gravidezes prévias. Não houve clara demonstração de benefício, pelo que a profilaxia da depressão pós-parto não é recomendada. Em revisão Cochrane6 sobre tratamento da depressão pós-parto, os autores concluem pela insuficiência de provas que orientem recomendações. Na prática, todos os ISRS aumentam o risco de má-formações congênitas. Administrados no fim da gravidez, expõem os recém-nascidos a risco de 20% a 30% em relação às seguintes alterações neonatais: agitação, problemas de tônus e sucção, convulsões e hiponatremia, entre outros.

Várias têm sido as abordagens para manejo da depressão, incluindo as psicológicas e as farmacológicas. Tratamentos psicológicos breves (16 a 20 sessões) mostram-se eficazes em pacientes com depressão de moderada intensidade. Em casos mais graves, coadjuvam a farmacoterapia. Ensaio clínico randomizado comparou terapia de solução de problemas, farmacoterapia, a combinação das duas e o manejo usual da depressão em serviço de atenção primária. Pacientes de todos os grupos mostraram nítida melhora em 12 semanas. A combinação de tratamentos não produziu resultados superiores ao de cada intervenção isolada. A farmacoterapia faz-se necessária para casos com sintomas mais intensos, como presença de transtornos ou episódios depressivos maiores. Nos pacientes com ideação suicida ou não responsivos ao manejo inicial, há necessidade de encaminhamento ao especialista para que se faça nova abordagem. Optando pela farmacoterapia, são recomendados, entre as várias possibilidades, os antidepressivos tricíclicos e os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Antidepressivos de uso corrente têm eficácia e velocidade de início de resposta clínica semelhantes, mas diferem quanto à incidência de efeitos indesejáveis, menor nos agentes mais novos. A maior parte dos estudos demonstra a superioridade dos antidepressivos em relação ao placebo e a semelhança de eficácia quando comparados entre si.

A escolha dos antidepressivos não se baseia apenas em eficácia, mas em outros critérios que envolvem segurança, tolerabilidade, toxicidade em dose excessiva, resposta prévia do paciente ou de um familiar a determinado agente, experiência do médico no manejo de um determinado fármaco, e ocorrência de situações especiais que exijam antidepressivos isentos ou com menor grau de alguns dos efeitos adversos e custo. Meta-análise de dez estudos comparou tricíclicos ou ISRS ou ambos a placebo. Cerca de 56% a 60% dos pacientes responderam bem a tratamento ativo versus 42% a 47% a placebo. Baixas doses de tricíclicos foram mais eficazes do que placebo no atendimento primário de pacientes depressivos. Revisão sistemática e meta-análise de 11 ensaios clínicos mostraram eficácia símile entre tricíclicos e ISRS e maior tolerabilidade aos últimos, o que ocasionou menor abandono de tratamento. Os ISRS, entretanto, podem aumentar a ideação suicida, sobretudo em crianças e adolescentes.

Importante rever o paciente duas vezes por semana no início do tratamento com os tricíclicos, uma vez que a resposta ao tratamento se inicia depois da segunda semana e pode demorar até seis semanas para se manifestar de forma completa. Somente adepois desse período deve-se cojitar em não resposta ao tratamento. Começa-se o tratamento com doses menores, com aumento progressivo, especialmente em idosos. O tratamento em dose plena deve ser continuado de 6 a 12 meses após da remissão dos sintomas, de forma a evitar a recaída, e a retirada deve ser feita de forma gradual.

Quando os pacientes não respondem a doses adequadas de antidepressivos de primeira escolha, é preciso, em primeiro lugar, verificar sua adesão ao tratamento. Se essa é alta, o diagnóstico deve ser reconsiderado, sendo pesquisadas as co-morbidades. Se o tratamento farmacológico for ainda conveniente, pode-se substituir o fármaco ou adicionar outro antidepressivo ao anterior. Há pouca certeza sobre a opção preferente. No caso de associações, o risco de interações farmacológicas deve ser levado em consideração.

O uso com inibidores da monoamina oxidase (IMAO) é contraindicado devendo ser respeitado intervalo mínimo de 15 dias sem uso de tricíclicos para início do tratamento com IMAO e vice-versa.

A doença bipolar inclui episódios de depressão maior e mania, sendo diagnosticada quando, ao menos uma vez, um episódio de mania ocorreu na vida do paciente. Há quatro indicações principais para uso de lítio na doença bipolar: mania aguda, estados mistos, depressão e prevenção de novos episódios. De todos os agentes denominados de estabilizadores do humor, lítio é o que tem eficácia mais abrangente em relação ao tratamento dessas condições. Apresenta como desvantagem início retardado de efeito e por isso utilizam-se anticonvulsivantes, neurolépticos ou benzodiazepínicos em associação com lítio no início do tratamento. Esses e outros fármacos não superam a eficácia do lítio, sendo também indicados como opção para pacientes com contraindicações formais ao uso de lítio. Pelo fato de sua dose terapêutica ser muito próxima da dose tóxica, o uso do lítio deve ser feito por especialista e quando é possível fazer monitoria de seu teor sérico. O uso prolongado pode causar distúrbios de tireoide e déficit cognitivo e de memória. A recidiva da doença é comum com a suspensão que assim deve ser feita de forma gradual.

Amitriptilina é antidepressivo tricíclico. Revisão14  comparou tolerabilidade e eficácia de amitriptilina com as de outros antidepressivos tricíclicos e inibidores seletivos da recaptação de serotonina. Amitriptilina foi tão eficaz quanto os demais antidepressivos. Amitriptilina induz maior sedação que outros agentes tricíclicos, o que é vantajoso em pacientes que expressam a depressão por distúrbios do sono (insônia terminal). Como os demais agentes tricíclicos, deve-se cuidar para não ocorrer dose excessiva pela gravidade de quadro cardiovascular a ela associado (ver monografia, página 512).

Clomipramina é, entre os agentes tricíclicos, o que apresenta menor cardiotoxicidade. Clomipramina apresenta também eficácia no controle do transtorno do pânico e na remissão do distúrbio obsessivo-compulsivo (ver monografia, página 529).

Nortriptilina, entre os tricíclicos, causa a menor hipotensão postural. Ensaio clínico duplo-cego e controlado por placebo comparou a eficácia de nortriptilina, psicoterapia interpessoal e sua combinação em prevenir ou retardar recorrência de depressão em 187 pacientes com 59 anos ou mais. Os tratamentos ativos foram mais benéficos que o placebo em relação ao desfecho medido. A combinação de intervenções superou a psicoterapia isolada e o placebo e mostrou tendência a ser mais eficaz que a monoterapia com nortriptilina (ver monografia, página 579).

Fluoxetina é o protótipo dos ISRS. No tratamento da depressão maior, fluoxetina foi significantemente mais bem tolerada do que tricíclicos. Em casos de doses excessivas, o dano foi menor com fluoxetina do que com antidepressivos tricíclicos, pois ocorrem menor número de mortes e internações (ver monografia, página 554).

Carbonato de lítio é um agente estabilizador do humor. Recomenda-se o lítio na prevenção de episódios depressivos recidivantes, tanto do transtorno bipolar como na depressão unipolar. Em pacientes bipolares que recebem lítio profilático regularmente por vários anos, as consequências dessa intervenção tem sido significantemente limitadas por aumento de índice de abandono de tratamento. Lítio mostra-se eficaz nos pacientes que apresentam quatro ou mais episódios de doença bipolar por ano (cicladores rápidos) e nos pacientes que têm sintomas psicóticos. O efeito da profilaxia não diminui com o tempo na maioria dos pacientes. O risco de recorrência aumenta nos meses que se seguem à suspensão do lítio. O tratamento com lítio não cura a doença. Não é superior aos antidepressivos no controle da depressão, necessita ajuste de dose mais difícil de fazer, e seus efeitos indesejáveis são mais sérios. Em revisão de nove estudos, lítio, comparativamente a placebo, mostrou maior eficácia em prevenir a recidiva de episódios na doença bipolar. A profilaxia com lítio tem falhado nos cicladores rápidos, o que também ocorre com outras intervenções terapêuticas. No tratamento da mania, lítio traz benefício definido, superando o placebo depois de 3 a 4 semanas de uso. Em comparação com outros fármacos, superou clorpromazina e mostrou resultados semelhantes aos de haloperidol, valproato de sódio e carbamazepina em estudos com quatro semanas de duração (ver monografia, página 448).

Carbamazepina, um anticonvulsivante, tem sido usado na doença bipolar, durante o período de latência do lítio. Também tem lugar no tratamento de manutenção em pacientes que não toleram o lítio ou são cicladores rápidos (ver monografia, página 441).

Valproato de sódio é anticonvulsivante, usado como adjuvante ou agente alternativo ao lítio em doença bipolar. O Clinical Evidence categoriza como benefício definido a intervenção com valproato de sódio em mania (ver monografia, página 1047).

 

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