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Prevenção de Malária em Gestantes

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da USP.
Supervisor do Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente.

Última revisão: 30/05/2016

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Contexto Clínico

Dados epidemiológicos da África subsaariana estimam a ocorrência de mais de 30 milhões de gestações em áreas onde o Plasmodium falciparum é endêmico. O problema é que a malária durante a gravidez está associada à malária placentária, efeitos adversos no nascimento e complicações e morte em ambos, mãe e a criança. Na África Subsaariana, estima-se que a malária durante a gravidez é causa de baixo peso ao nascer em até 20% dos partos, levando a mais de 100.000 mortes infantis anualmente. Dada à elevada carga de malária nessa população vulnerável, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a implementação de rotina de medidas de prevenção de malária entre mulheres grávidas em todos os países na África em que o Plasmodium falciparum ainda é endêmico. Essas medidas incluem o uso de mosquiteiros tratados com inseticida de longa duração e tratamento preventivo intermitente com sulfadoxina-pirimetamina durante a gravidez. Quando existe resistência a essa medicação, não se sabe qual a melhor opção.

 

O Estudo

Foi realizado um estudo duplo-cego, randomizado, controlado com 300 adolescentes ou mulheres grávidas e não portadoras de portadoras de HIV em Uganda, onde a resistência a sulfadoxina-pirimetamina é generalizada. As participantes foram aleatorizadas para receber sulfadoxina-pirimetamina (106 participantes), um regime de dihidroartemisinina-piperaquina de três doses (94 participantes), ou um regime dihidroartemisinina-piperaquina mensal (100 participantes). O desfecho primário avaliado foi a prevalência de histopatologia confirmando a malária placentária.

A prevalência da histopatologia confirmando malária placentária foi significativamente maior no grupo de sulfadoxina e pirimetamina (50,0%) do que no grupo de três doses de dihidroartemisinina-piperaquina (34,1%, P = 0,03) ou o grupo de dose mensal de dihidroartemisinina-piperaquina (27,1%, P = 0,001). A prevalência de um resultado adverso ao nascimento foi menor no grupo de dose mensal de diidroartemisinina-piperaquina (9,2%) do que no grupo de sulfadoxina e pirimetamina (18,6%, P = 0,05) ou o grupo dihidroartemisinina-piperaquina de três doses (21,3%, P = 0,02). Durante a gravidez, a incidência da malária sintomática foi significativamente maior no grupo de sulfadoxina-pirimetamina (41 episódios ao longo de 43,0 anos-pessoa em risco) do que no grupo dihidroartemisinina-piperaquina de três doses (12 episódios ao longo de 38,2 anos-pessoa em risco, P = 0,001) ou no grupo dihidroartemisinina-piperaquina mensal (0 episódios ao longo de 42,3 anos-pessoa em risco, P <0,001), assim como a prevalência da parasitemia (40,5% no grupo de sulfadoxina-pirimetamina vs. 16,6% no grupo de três doses de dihidroartemisinina-piperaquina [P <0,001] e 5,2% no grupo diidroartemisinina-piperaquina mensal [P <0,001]). Em cada grupo de tratamento, o risco de vômitos após a administração de qualquer dose dos agentes em estudo foi menos do que 0,4%, e não houve diferenças significativas entre os grupos em risco de eventos adversos.

 

Aplicações Práticas

Esse é um estudo bastante importante, feito em uma população de risco de uma área de baixo índice de desenvolvimento humano. Conseguir fazer profilaxia adequada para malária na África Subsaariana em gestantes é fundamental para evitar mortes maternas e infantis precoces. Por esse estudo concluímos que a incidência da malária sintomática, a prevalência de parasitemia durante a gravidez, e a prevalência de histopatologia confirmando a malária placentária foram menores no grupo que recebeu o regime de dihidroartemisinina-piperaquina de três doses e no grupo que recebeu o regime mensal dihidroartemisinina-piperaquina comparado ao grupo que recebeu o regime tradicional de sulfadoxina-pirimetamina. O regime mensal, entretanto, oferece ainda mais vantagens do que o regime de três doses de dihidroartesamina-piperaquina em desfechos como uma menor incidência de malária sintomática, uma menor prevalência de parasitemia durante a gravidez e um menor risco de qualquer resultado adverso ao nascimento do que o regime de três doses. Sendo assim, podemos entender que o regime mensal das drogas testadas deve ser a melhor escolha de profilaxia de malária em populações que estão expostas à malária endêmica e com risco de grande resistência à sulfadoxina-pirimetamina.

 

Referências

Kakuru A et al. Dihydroartemisinin–Piperaquine for the Prevention of Malaria in Pregnancy. N Engl J Med 2016; 374:928-939. 

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