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Hepatite A

Última revisão: 30/01/2011

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Reproduzido de:

DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS – GUIA DE BOLSO – 8ª edição revista [Link Livre para o Documento Original]

MINISTÉRIO DA SAÚDE

Secretaria de Vigilância em Saúde

Departamento de Vigilância Epidemiológica

8ª edição revista

BRASÍLIA / DF – 2010

 

Hepatite A

 

CID 10: B15

 

ASPECTOS CLÍNICOS E EPIDEMIOLÓGICOS

Descrição

Doença viral aguda, de manifestações clínicas variadas, desde formas subclínicas, oligossintomáticas e até fulminantes (entre 2 e 8% dos casos). Os sintomas se assemelham a uma síndrome gripal, porém há elevação das transaminases. A frequência de quadros ictéricos aumenta com a idade, variando de 5 a 10% em menores de 6 anos, chegando de 70 a 80% nos adultos. O quadro clínico é mais intenso à medida que aumenta a idade do paciente. No decurso de uma Hepatite típica, há vários períodos:

 

     Incubação - Varia de 15 a 45 dias, média de 30 dias.

     Prodrômico ou pré-ictérico - Com duração em média de 7 dias, caracterizado por mal-estar, cefaleia, febre baixa, anorexia, astenia, fadiga intensa, artralgia, náuseas, vômitos, desconforto abdominal na região do hipocôndrio direito, aversão a alguns alimentos e a fumaça de cigarro.

     Ictérico - Com intensidade variável e duração geralmente de 4 a 6 semanas. É precedido por 2 a 3 dias de colúria. Pode ocorrer hipocolia fecal, prurido, hepato ou hepatoesplenomegalia. A febre, artralgia e cefaleia vão desaparecendo nesta fase.

     Convalescença - Retorno da sensação de bem-estar: gradativamente, a icterícia regride e as fezes e urina voltam à coloração normal.

 

Agente Etiológico

Vírus da Hepatite A (HAV). Vírus RNA, família Picornaviridae.

 

Reservatório

O homem, principalmente. Também primatas, como chimpanzés e saguis.

 

Modo de Transmissão

Fecal-oral, veiculação hídrica, pessoa a pessoa (contato intrafamiliar e institucional), alimentos contaminados e objetos inanimados. Transmissão percutânea (inoculação acidental) e parenteral (transfusão) são muito raras, devido ao curto periodo de viremia.

 

Período de Transmissibilidade

Desde a segunda semana antes do inicio dos sintomas até o final da segunda semana de doença.

 

Complicações

As formas prolongadas ou recorrentes são raras e caracterizam-se pela manutenção das transaminases em níveis elevados por meses ou, até mesmo, 1 ano. A forma fulminante apresenta letalidade elevada (40 a 80% dos casos). Ocorre necrose maciça ou submaciça do fígado. Os primeiros sinais e sintomas são brandos e inespecíficos. Icterícia e indisposição progressivas, urina escurecida, e coagulação anormal são sinais que devem chamar atenção para o desenvolvimento de insuficiência hepática aguda (10 a 30 dias). A deterioração neurológica progride para o coma ao longo de poucos dias após a apresentação inicial.

 

Diagnóstico

Pode ser clínico-laboratorial, clínico-epidemiológico e laboratorial. Apenas com os aspectos clínicos, não é possível identificar o agente etiológico, sendo necessária a realização de exames sorológicos. Entretanto, podem-se confirmar clinicamente os casos secundários em um surto, no qual o caso-índice teve sorologia confirmada (anti-HAVIgM). Os exames laboratoriais inespecíficos incluem as dosagens de aminotransferases – ALT/TGP e AST/TGO – que denunciam lesão do parênquima hepático. O nível de ALT pode estar 3 vezes maior que o normal, podendo atingir até mais de 2.000UI/l. As bilirrubinas são elevadas, podendo alcançar valores vinte a vinte e cinco vezes acima do normal, sobretudo a custa da fração não conjugada (indireta) e o tempo de protrombina pode estar diminuído (TP>17s ou INR>1,5), indicando gravidade. Outros exames podem estar alterados, como a glicemia e a albumina (baixas). Os exames específicos são feitos pela identificação dos marcadores sorológicos (conforme quadro a seguir). Na infecção aguda, o anti-HAV IgM e positivo (desde o inicio da sintomatologia, que, normalmente, desaparece após 3 - 6 meses do quadro clínico). Na infecção passada e na vacinação, o anti-HAV/IgG é positivo (detectado 1 semana após o inicio dos sintomas, que se mantem ao longo da vida) (Quadro 17).

 

Quadro 17. Hepatite A: interpretação dos resultados sorológicos

Anti-HAV Total

Anti-HAV IgM

Interpretação

(+)

(+)

Hepatite aguda pelo VHA, infecção recente

(+)

(–)

Infecção passada / imunidade (por contato prévio com o VHA ou por vacina)

(–)

(–)

Suscetível

 

Diagnóstico Diferencial

Hepatite por vírus B, C, D ou E; infecções como: leptospirose, febre amarela, malária, dengue, sepse, citomegalovírus e mononucleose; doenças hemolíticas; obstruções biliares; uso abusivo de álcool; e uso de alguns medicamentos e substâncias químicas.

 

Tratamento

Não existe tratamento específico para a forma aguda. Se necessário, apenas sintomático para nauseas, vomitos e prurido. Como recomendação geral, orienta-se repouso relativo até praticamente a normalização das aminotransferases. Dieta pobre em gordura e rica em carboidratos é de uso popular, porém seu maior benefício é ser mais agradável para o paciente anorético. De forma prática, deve-se recomendar que o próprio paciente defina sua dieta, de acordo com seu apetite e aceitação alimentar. A única restrição relaciona-se a ingestão de álcool, que deve ser suspensa por 6 meses, no mínimo, e, preferencialmente, por 1 ano. Medicamentos não devem ser administrados sem recomendação medica, para não agravar o dano hepático. As drogas consideradas “hepatoprotetoras”, associadas ou não a complexos vitamínicos, não tem nenhum valor terapêutico.

 

Características Epidemiológicas

A Hepatite A tem distribuição universal e apresenta-se de forma esporádica ou de surto. Tem maior prevalência em áreas com mas condições sanitárias e higiênicas. É frequente em instituições fechadas. Nos países subdesenvolvidos, acomete com mais frequência crianças e adultos jovens; nos desenvolvidos, os adultos. A mortalidade e a letalidade são baixas e essa ultima tende a aumentar com a idade do paciente. O Ministério da Saúde vem desenvolvendo um estudo soro-epidemiológico de base populacional para as Hepatites A, B e C, nas capitais brasileiras. Resultados preliminares da região Nordeste, Centro-oeste e Distrito Federal mostram, endemicidade moderada de Hepatite A, com a prevalência variando entre 32 e 38% em menores de 10 anos.

 

VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA

Objetivos

Conhecer a magnitude, tendência e distribuição da doença, por faixa etária e áreas geográficas. Detectar, prevenir e controlar surtos, adotando e avaliando o impacto das medidas de controle.

 

Notificação

Todos os casos suspeitos ou confirmados e os surtos devem ser notificados e investigados.

 

Definição de Caso

Suspeito

Suspeita clínica / bioquímica

     Sintomático ictérico

     Indivíduo que desenvolveu icterícia subitamente (recente ou não), com ou sem sintomas como febre, mal-estar, nauseas, vomitos, mialgia, colúria e hipocolia fecal

     Indivíduo que desenvolveu icterícia subitamente e evoluiu para óbito, sem outro diagnóstico etiológico confirmado.

 

     Sintomático anictérico

     Indivíduo sem icterícia, que apresente um ou mais sintomas como febre, mal-estar, náusea, vomitos, mialgia e que, na investigação laboratorial, apresente valor aumentado das aminotransferases.

 

     Assintomático

     Indivíduo exposto a uma fonte de infecção bem documentada (na hemodiálise, em acidente ocupacional com exposição percutânea ou de mucosas, por transfusão de sangue ou hemoderivados, procedimentos cirúrgicos/odontológicos/colocação de piercing/tatuagem com material contaminado, por uso de drogas endovenosas com compartilhamento de seringa ou agulha).

     Comunicante de caso confirmado de hepatite, independente da forma clínica e evolutiva do caso índice.

     Indivíduo com alteração de aminotransferases no soro, igual ou superior a três vezes o valor máximo normal dessas enzimas, segundo o método utilizado.

 

Suspeito com marcador sorológico reagente

     Doador de sangue

     Indivíduo assintomático doador de sangue, com um ou mais marcadores reagentes para Hepatite A.

 

     Indivíduo assintomático com marcador reagente para hepatite viral A.

 

Confirmado

Indivíduo que preenche as condições de suspeito com marcador anti-HAV IgM positivo; ou indivíduo que preenche as condições de suspeito mais um vínculo epidemiológico com caso confirmado por sorologia de Hepatite A.

 

MEDIDAS DE CONTROLE

As medidas de controle incluem a notificação de surtos e os cuidados com o paciente. A notificação é importante para que se desencadeie a investigação das fontes comuns e o controle da transmissão por meio de medidas preventivas. Os cuidados com o paciente incluem o afastamento do mesmo das atividades normais. Se a infecção ocorrer em criança, orientar sua ausência temporária da creche, pré-escola ou escola, durante as primeiras duas semanas da doença. A desinfecção de objetos, limpeza de bancadas, chão, entre outros. Pode ser feita utilizando cloro ou água sanitária. As medidas preventivas incluem: educação da população quanto às boas práticas de higiene, com ênfase na lavagem das mãos após o uso do banheiro, quando da preparação de alimentos e antes de se alimentar; disposição sanitária de fezes; medidas de saneamento básico, com água tratada e esgoto; orientação das creches, pré-escolas e instituições fechadas para a adoção de medidas rigorosas de higiene, tais como lavagem das mãos ao efetuar trocas de fraldas, ao preparar os alimentos e antes de comer, além da desinfecção de objetos, bancadas, chão; cozimento adequado dos mariscos, frutos do mar e desinfecção (uso de cloro) dos alimentos crus. As vacinas contra Hepatite A atualmente em uso e licenciadas no Brasil são preparadas a partir de culturas celulares em fibroblastos humanos e inativadas pela formalina. O conteúdo de antígenos de cada vacina e expresso em unidades ELISA (EL.U.), ou unidades (U), ou unidades internacionais (UI), de acordo com o laboratório produtor. A imunização contra a Hepatite A é realizada a partir de 12 meses de idade, em 2 doses, com intervalo de 6 meses entre elas. Não há no momento a disponibilização dessa vacina no calendário básico de vacinação, sendo as indicações descritas a seguir.

A vacina de vírus inativado contra a Hepatite A está disponível nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie), integrante do SUS, conforme Manual do CRIE, 3a edição, do Ministério da Saúde, 2006, para as seguintes situações:

 

     Hepatopatias crônicas de qualquer etiologia;

     Portadores crônicos do HBV e HCV;

     Coagulopatias;

     Crianças menores de 13 anos com HIV/aids;

     Adultos com HIV/aids que sejam portadores do HBV ou HCV;

     Doenças de depósito;

     Fibrose cística;

     Trissomias;

     Imunodepressão terapêutica ou por doença imunodepressora;

     Candidatos a transplante de órgão sólido, cadastrados em programas de transplantes;

     Transplantados de órgãos sólidos ou de medula óssea;

     Doadores de órgãos sólidos ou de medula ósseas, cadastrados em programas de transplantes;

     Hemoglobinopatias.

 

As contraindicações se restringem a historia de reação anafilática a algum dos componentes da vacina e a gravidez.

Eventos adversos pós-vacinação (EAPV) locais observados são a dor, eritema ou edema, que ocorrem entre 20 e 50% dos vacinados, sendo leves e transitórios. Os EAPV sistêmicos mais comuns são febre e fadiga e ocorrem em menos de 5% dos vacinados. Os casos de anafilaxia são raros.

 

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