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Antraz ou Carbúnculo

Última revisão: 01/07/2009

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Reproduzido de:

Guia de Vigilância Epidemiológica – 6ª edição (2005) – 2ª reimpressão (2007)

Série A. Normas e Manuais Técnicos [Link Livre para o Documento Original]

MINISTÉRIO DA SAÚDE

Secretaria de Vigilância em Saúde

Departamento de Vigilância Epidemiológica

Brasília / DF – 2007

 

Antraz ou Carbúnculo

CID 10: A22

 

CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS E EPIDEMIOLÓGICAS

Descrição

Toxiinfecção aguda que, em geral, acomete a pele sob as formas de lesão bolhosa e pústula maligna, produzida pelo contato com animais (bovino, caprino, eqüino e outros) com a mesma doença. As formas viscerais são raras, embora graves, representadas pelo carbúnculo pulmonar, gastrintestinal e neuromeníngeo.

 

Sinonímia

Anthrax, na língua inglesa. No Brasil, a confluência de furúnculos, que é um diagnóstico diferencial da toxiinfecção causada pelo Bacillus anthracis, é denominada carbúnculo ou antraz. Na vigência desta furunculose multifocal, a suspeita de antraz só deve ser levantada quando houver história epidemiológica compatível.

 

Agente Etiológico

Bacilo móvel, grampositivo encapsulado, formador de esporos denominados Bacillus anthracis.

 

Reservatório

Animais herbívoros, domésticos e selvagens. O solo contaminado também representa um reservatório, pois quando se expõem ao ar as formas vegetativas esporulam e os esporos de B. anthracis, que resistem a situações ambientais adversas e à desinfecção, podem permanecer viáveis durante muitos anos. Este bacilo é comensal do solo, em várias partes do mundo. A proliferação bacteriana e o número de esporos no solo aumentam quando de inundações ou outras circunstâncias ecológicas. A terra também pode ser contaminada por aves de rapina, que disseminam o germe de uma zona para outra, após alimentar-se de cadáver de animal infectado pelo B. anthracis e em estado de putrefação.

A pele, couro seco ou processado, provenientes de animais infectados, podem albergar esporos durante anos e são fômites que transmitem a infecção pelo mundo.

 

Vetores

Aventa-se a possibilidade de transmissão por insetos hematófagos que tenham se alimentado de animais infectados.

 

Modo de Transmissão

A maneira mais comum de contaminação é o manuseio de produtos tais como lã, couro, osso e pêlo, provenientes de animais infectados. Em casos mais raros, a doença também pode ser contraída por ingestão de alimento contaminado (carne de animais infectados) ou por inalação dos esporos. Outra forma de se adquirir a doença é pela picada de insetos hematófagos, comuns em regiões endêmicas. É bem pouco provável ocorrer a transmissão direta da doença de um indivíduo infectado para um sadio.

 

Período de Incubação

Varia de um a sete dias, sendo em média de dois a três dias. É possível se estender por até 60 dias.

 

Período de Transmissibilidade

Os objetos e o solo contaminados podem permanecer infectantes durante décadas. A transmissão de pessoa a pessoa é muito rara.

 

Susceptibilidade e Imunidade

Indeterminadas. Existem dados de infecção não manifesta em pessoas que mantém contato freqüente com o agente infeccioso. Podem surgir segundos ataques, raras vezes identificados.

 

ASPECTOS CLÍNICOS E LABORATORIAIS

Manifestações Clínicas

Cutânea – lesão na pele que evolui, durante um período de dois a seis dias, do estágio de pápula para vesícula e pústula, progredindo para cicatriz negra profunda.

Inalatória – inicia com febre, cefaléia, vômitos, tontura, fraqueza, dor abdominal e dor torácica, progride com piora do quadro respiratório e evidência radiológica de expansão do mediastino.

Intestinal – inicia com náusea, vômito e mal-estar, com progressão rápida para diarréia sanguinolenta, abdome agudo ou sepsis.

Orofaringe – lesão de mucosa, na cavidade oral ou da orofaringe, adenopatia cervical, edema e febre.

 

Na forma cutânea, após o período de incubação, aparece pápula inflamatória, seguida de formação vesicular que logo exsuda e transforma-se em pústula com porção central de cor amarela, evoluindo para o negro, com formação de escara. Dois a três dias após o início da lesão, esta já apresenta o aspecto característico de escara indolor, seca, com centro negro e borda edemaciada e inflamada, acompanhada de adenopatia satélite (para os linfonodos regionais), febre discreta (37°C a 38°C) e bom estado geral. Pode haver evolução espontânea para cicatrização e cura, porém em alguns casos não tratados, quando há comprometimento da resistência, pode disseminar-se para os gânglios linfáticos regionais e a corrente sangüínea, com conseqüente septicemia.

Nas infecções respiratórias (carbúnculo por inalação), os sintomas iniciais são discretos, inespecíficos e assemelham-se aos de uma infecção comum das vias aéreas superiores. Ao término de três a cinco dias, aparecem os sintomas agudos de insuficiência respiratória, sinais radiológicos sugestivos de exsudado pleural, febre e choque, que evolui rapidamente para a morte.

O carbúnculo intestinal é raro e mais difícil de ser identificado, exceto quando sob a forma de surtos epidêmicos explosivos, do tipo causado por intoxicação alimentar. As manifestações clínicas são mal-estar abdominal, seguido de febre, sinais de septicemia e morte.

 

Diagnóstico Diferencial

Furunculose cutânea causada pelo Staphylococcus e/ou Streptococcus, dermatite pustulosa contagiosa (enfermidade vírica de Orf).

 

Diagnóstico Laboratorial

Isolamento do Bacillus anthracis no sangue, lesões ou secreções mediante esfregaços ou inoculações em animais. Em tecidos, pela histologia. Também pode ser identificado por imunofluorescência.

 

Tratamento

Quadro 1. Esquema para profilaxia pós-exposição com ciprofloxacina

 

Via de administração

Doses

Adulto

Ciprofloxacina

Oral

500mg, 2 vezes ao dia

Criança (< 20 kg)

Ciprofloxacina

Oral

20 a 30mg/kg/dia, em 2 doses diárias

 

Manter profilaxia pós-exposição por 60 dias, definindo esquema terapêutico após a realização de teste de sensibilidade antimicrobiana, de acordo com as seguintes orientações:

 

      enquanto não houver resultado de teste de sensibilidade antimicrobiana (para amoxicilina ou doxiciclina) ou se o teste revelar resistência antimicrobiana comprovada laboratorialmente, manter o esquema do Quadro 1.

      quando houver comprovação de que a cepa é sensível para amoxicilina e doxiciclina, o esquema de tratamento deve ser alterado, conforme os quadros a seguir:

 

Quadro 2. 1ª escolha: Amoxicilina

 

Via de administração

Doses

Adulto (18 a 65 anos)

Amoxicilina

Oral

500 mg, 3 vezes ao dia

Criança (< 20 kg)

Amoxicilina

Oral

40 mg/kg/dia, em 3 doses diárias

2ª escolha: Doxiciclina

 

Via de administração

Doses

Adulto

Doxiciclina oral

Oral

100 mg, 2 vezes ao dia

Criança (< 20 kg)

Doxiciclina

Oral

5 mg/kg/dia, em 2 doses diárias

 

      Caso o indivíduo exposto a material suspeito de contaminação pelo Bacillus anthracis apresente sintomatologia compatível com a doença, realizar tratamento conforme a conduta estabelecida. Avaliar indicação médica de uso da droga por via parenteral.

      Realizar acompanhamento semanal de pacientes/expostos em regime ambulatorial até o fim do tratamento.

 

ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS

O homem é um hospedeiro acidental e a incidência desta doença é muito baixa, geralmente esporádica em quase todo o mundo. É considerado risco ocupacional em potencial para trabalhadores que manipulam herbívoros e seus produtos. Há registro de casos na América do Sul e Central, Ásia e África. Recentemente, ocorreram casos nos Estados Unidos da América, imputados à guerra biológica. No Brasil, não existe registro de casos da doença em humanos. Atualmente, o risco de se contrair a doença é mínimo.

 

VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA

Objetivos

      Diagnosticar e tratar precocemente os casos graves, para evitar complicações e óbitos.

      Identificar a fonte de infecção, para adoção de medidas de controle e desinfecção concorrente.

      Realizar quimioprofilaxia dos indivíduos expostos ao Bacillus anthracis.

 

Definição de Caso

Suspeito

      Indivíduo com lesão cutânea que evolui para pápula, vesícula e pústula, progredindo para cicatriz negra profunda; e história de exposição a material, animal ou produtos animais contaminados pelo B. anthracis.

      Indivíduo que apresenta febre, cefaléia, vômitos, tontura, fraqueza, dor abdominal e dor torácica, que progride com piora do quadro respiratório, evidência radiológica de expansão do mediastino e história de exposição a material, animal ou produtos animais contaminados pelo B. anthracis.

      Indivíduo com quadro de náusea, vômito e mal-estar, com progressão rápida para diarréia sanguinolenta, abdome agudo ou sepsis; e história de exposição a material, animal ou produtos animais contaminados pelo B. anthracis.

      Indivíduo com quadro de lesão em mucosa oral ou da orofaringe, adenopatia cervical, edema, febre e história de exposição a material, animal ou produtos animais contaminados pelo B. anthracis.

 

Confirmado

Critério clínico laboratorial – indivíduo com infecção pelo B. anthracis confirmada laboratorialmente.

Critério clínico-epidemiológico – indivíduo com exposição a material, animal ou produtos animais contaminados pelo B. anthracis; e quadro clínico compatível com a doença.

 

Descartado

Casos suspeitos cujos exames laboratoriais identificaram outro agente.

 

Notificação

A ocorrência de casos suspeitos desta doença requer imediata notificação e investigação, por se tratar de doença grave e sob vigilância. Mesmo casos isolados impõem a adoção imediata de medidas de controle, visto tratar-se de evento inusitado. Por ser doença passível de uso indevido como arma biológica em ataques terroristas, todo caso suspeito deve ser prontamente comunicado por telefone, fax ou e-mail às autoridades sanitárias superiores.

 

Primeiras Medidas a serem Adotadas

Toda pessoa exposta a material supostamente contaminado com Bacillus anthracis deve ser atendida em unidade de saúde de referência. Mesmo antes da confirmação laboratorial da contaminação e início dos sintomas dos indivíduos expostos, deve-se orientá-los e mantê-los sob monitoramento. Caso alguém passe a apresentar sinais e sintomas compatíveis com a doença, realizar coleta de material de nasofaringe (swab nasal) de todos os indivíduos expostos e encaminhar para laboratório de referência.

O material supostamente contaminado também deve ser enviado ao laboratório de referência, para a realização de testes segundo as seguintes diretrizes de biossegurança:

 

Para a Pessoa que Localizou um Material Suspeito

      não tocar, não agitar, não tentar limpar ou recolher o material suspeito

      evitar olhar muito próximo, cheirar, provar, espirrar ou tossir

      desligar aparelhos de climatização, condicionadores, exaustores e ventiladores de ar

      fechar as janelas e portas e sair do local, mantendo o mesmo isolado, sem permissão de entrada de pessoas e/ou animais

      demarcar a área a ser descontaminada com material desinfetante

      contactar a secretaria de saúde do estado, ou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, quando se tratar de ocorrência em áreas de terminais aquaviários, portos, aeroportos, estações, passagens de fronteiras e terminais alfandegados

 

Recomendações Importantes em Caso de Contato com o Material Suspeito

      lavar imediatamente as mãos, com água corrente abundante e sabão

      não esfregar as mãos antes de molhá-las

      não escovar as mãos durante a lavagem

      procurar imediata orientação em uma unidade de saúde

 

Coleta, Recolhimento (se for o caso), Acondicionamento, Transporte e Descontaminação do Material

      verificar se os procedimentos básicos foram adotados corretamente; caso contrário, adotá-los

      avaliar a situação da área suspeita de contaminação

      adotar estratégias específicas, relacionadas ao recolhimento, coleta, transporte e descontaminação, de acordo com o descrito nos Anexos 1 a 5 deste capítulo

 

Essas atividades devem ser realizadas por equipe competente e capacitada, que deve atender aos seguintes requisitos:

 

      nenhum profissional envolvido pode ser portador de ferimentos, queimaduras, imunodeficiências ou imunossupressões;

      não usar relógios e adereços (anéis, brincos, colares, entre outros);

      usar os equipamentos de proteção individual preconizados no Anexo 1 deste capítulo;

      usar respiradores alternativos e cuidados especiais, quando portadores de pêlos faciais (barba, bigode e costeletas);

      após os procedimentos, realizar higiene pessoal completa: banho com água corrente abundante e sabão.

 

Assistência Médica ao Paciente

Adotar medidas junto às unidades de referência para acompanhamento adequado aos doentes e a todos os indivíduos expostos sem proteção ao suposto material contaminado.

 

Qualidade da Assistência

Verificar se as unidades de referência estão seguindo as orientações para a quimioprofilaxia e tratamento.

 

Confirmação Diagnóstica

Garantir a coleta e transporte dos espécimes para diagnóstico laboratorial, de acordo com as normas técnicas constantes do Anexo 1 deste capítulo.

 

Proteção da População

Descarte adequado dos materiais supostamente contaminados e quimioprofilaxia dos expostos.

 

Investigação

A investigação deve iniciar-se imediatamente após a notificação da existência de material supostamente contaminado ou de um ou mais casos da doença, para permitir que as medidas de controle possam ser adotadas em tempo oportuno.

Para o material supostamente contaminado, seguir as orientações descritas anteriormente, complementadas com as dos Anexos 1 a 5 deste capítulo.

 

ROTEIRO DA INVESTIGAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA

Identificação do Paciente

Preencher todos os campos da Ficha de Notificação do Sinan, relativos aos dados gerais, notificação individual e residência. Não se dispõe de ficha epidemiológica de investigação para este agravo no Sinan, devendo-se elaborar uma específica para este fim, contendo campos que coletem as principais características clínicas e epidemiológicas da doença.

 

Coleta de Dados Clínicos e Epidemiológicos

Para Confirmar a Suspeita de Exposição

      Anotar na ficha de investigação elaborada os dados sobre o tipo de material (couro, pó branco, etc.), dia da exposição, etc. Uma pequena história (anamnese) deve ser feita para maior riqueza de detalhes.

      Investigar minuciosamente:

»     a fidedignidade das informações;

»     se outras pessoas identificá-las podem ter entrado em contato com o suposto material contaminado;

»     a abrangência da população acometida;

»     a provável proveniência do material supostamente contaminado, quando se tratar de contaminação intencional;

»     nos casos de contaminação por animais ou seus produtos, qual a proveniência, abrangência da disseminação do agente e vínculo com a ocupação dos indivíduos acometidos.

 

Análise de Dados

A análise dos dados da investigação deve permitir a avaliação da magnitude da provável contaminação e a adequação das medidas adotadas, principalmente quanto à quimioprofilaxia, tratamento dos casos e risco de eventos semelhantes virem a acontecer.

Como a doença não tem grande poder de disseminação e, mesmo quando se apresenta sob a forma de surtos, o número de acometidos é limitado, as análises dos eventos devem ser feitas caso a caso, descrevendo as ocorrências. Desde o início do processo o investigador deve analisar as informações para verificar se decorre de doença profissional, contaminação acidental ou intencional – análises que devem alimentar o processo de decisão das autoridades sanitárias.

Observar se todas as informações necessárias para o encerramento dos casos e do evento (epidemia ou casos isolados) foram coletados durante a investigação e se as mesmas foram criteriosamente registradas e analisadas.

 

Relatório Final

As informações coletadas devem ser sistematizadas em um relatório final, sejam de casos isolados, surtos e, principalmente, quando houver suspeita de que a contaminação possa ter sido intencional.

Dentre as principais conclusões, devem-se destacar:

 

      local de transmissão do(s) caso(s) e distribuição dos casos segundo espaço, pessoa e tempo em situações de surtos;

      modo de transmissão (contato com animais, contaminação intencional, caso importado etc.);

      situação de risco para a ocorrência de novos casos e medidas de controle adotadas;

      critérios de confirmação e descarte dos casos.

 

INSTRUMENTOS DISPONÍVEIS PARA CONTROLE

Imunização

A vacina contra o carbúnculo ou antraz contém um filtrado purificado de cultura do Bacillus anthracis. O Brasil não dispõe desta vacina e a produção mundial, por sua vez, é muito limitada.

O esquema de vacinação é de 6 doses de 0,5ml, administradas por via subcutânea em 0, 2 e 4 semanas e, posteriormente, no 6º, 12º e 18º meses. Embora existam evidências de que esta vacina proteja contra as formas cutânea (pele) e inalatória da doença, tal proteção é temporária e, além do mais, exige reforços anuais de revacinação.

 

Recomendações para a vacinação – a vacina é indicada somente quando existe risco de infecção definido. Exemplos de grupos de pessoas que estão sob risco de infecção são: técnicos de laboratório que trabalham com o bacilo e militares envolvidos em guerras com uso de arma biológica.

A vacinação de civis e da população em geral não é recomendada pelas seguintes razões:

 

      o esquema para conferir a proteção adequada é longo (18 meses). Portanto, esta vacina não está indicada para a população em situações que exigem proteção imediata, como um ataque de bioterrorismo;

      o tempo de proteção conferida pela vacina é muito curto, exigindo a aplicação de reforços anuais.

 

Ações de Educação em Saúde

Os indivíduos expostos ou sob risco de exposição devem ser comunicados e orientados a buscar informações nas unidades de saúde de referência, para serem submetidos à quimioprofilaxia e/ou tratamento quando indicado. Em áreas de exposição profissional, alertar sobre as formas de se adquirir a doença. Quando houver suspeita de ataque de bioterrorismo, utilizar os meios de comunicação para orientar a população como proceder nos casos de identificação de material suspeito, de acordo com as normas descritas.

 

ANEXO 1 – EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL PARA O MANUSEIO DE MATERIAL COM SUSPEIÇÃO DE B. ANTHRACIS

Grupo 1

No caso de coleta/recolhimento de material suspeito contido em envelope, caixa ou qualquer outro recipiente, mas sem indícios de contaminação aparente do meio externo, é indicado o uso de:

 

      máscara de proteção facial;

      óculos de proteção ou protetor facial;

      luvas descartáveis de látex;

      avental descartável.

 

Grupo 2

Quando o material suspeito se apresentar de forma residual e localizada, em ambiente não exposto a correntes de ar, seja desprovido (ou sem uso) de sistema de climatização, condicionador de ambiente, exaustor ou ventilador de ar, orienta-se, para quem o coletar e recolher, as seguintes proteções:

 

      macacão descartável em não-tecido ou Tyvek, com capuz;

      luvas de borracha nitrílica ou luvas emborrachadas sobrepostas a uma de látex descartável;

      máscara de proteção facial;

      óculos de proteção;

      botas de borracha.

 

Grupo 3

No caso do material suspeito apresentar indicativo de suspensão ou dispersão no ambiente, orienta-se, para quem o coletar e recolher, as seguintes proteções:

 

      macacão emborrachado ou de PVC, com capuz e elástico;

      luvas de borracha nitrílica, sobrepostas a uma de látex descartável;

      botas de borracha;

      respirador facial inteiro.

 

Tabela de especificações dos equipamentos de proteção individual (EPI)

EPI

Especificação

Avental

Descartável, com mangas compridas, punho em malha ou elástico, gramatura 50 g/m2, resistente à esterilização por calor úmido, rasgos e tração, alta drapeabilidade, hipoalergênico, não inflamável, com 90% de eficiência na filtração de bactérias

Botas de borracha

Confeccionadas em borracha natural resistente a agentes químicos

Luvas tipo 1

Confeccionadas em látex, descartável, não-estéril

Luvas tipo 2

Confeccionadas em borracha nitrílica, descartável, não-estéril

Luvas tipo 3

Confeccionadas em borracha natural resistente a agentes químicos, com característica antiderrapante

Macacão não-tecido com capuz

Descartável, com mangas compridas, confeccionado em material nãotecido, gramatura 60 g/m2, punho de malha ou elástico, com capuz contendo ajustes ao redor da face, resistente a tração e rasgos, alta drapeabilidade, hipoalergênico, não-inflamável, com 90% de eficiência na filtração de bactérias. Abertura frontal por zíper ou velcro

Macacão Tyvek com capuz

Descartável, com mangas compridas, confeccionado em Tyvek, punho de malha ou elástico, com capuz contendo ajustes ao redor da face, resistente à tração e rasgos com abertura frontal por zíper ou velcro

Macacão nitrílico com capuz

Com mangas compridas, confeccionado em borracha nitrílica, ajustes no punho e no capuz ao redor da face, resistente a agentes químicos, tração e rasgos, com abertura frontal por zíper ou velcro

Macacão emborrachado com capuz

Com mangas compridas, confeccionado em poliuretano/PVC, ajustes no punho e no capuz ao redor da face, resistente a agentes químicos, tração e rasgos, com abertura frontal por zíper ou velcro

Máscara de proteção facial

Tipo respirador, para partículas, sem manutenção, N95, com eficácia na filtração de 95% de partículas de até 0,3 µ (usada para ações contra a tuberculose).

Obs: essa máscara, dependendo das condições de conservação, poderá ser reutilizada. Pode ser adquirida com válvula especial, para facilitar a respiração ou não

Óculos de proteção

Flexível, em PVC incolor, leve, com adaptação perfeita ao nariz para conforto em uso prolongado; com lentes em policarbonato, resistente a impactos, antiembaçante, contra riscos e proteção antiUV. Pode ser usado em combinação a óculos com lentes de prescrição

Protetor facial

Com ampla proteção lateral, com ajustes de tensão para posicionamento do visor. Visor em policarbonato, incolor, que fornece proteção a impactos e resistência a calor, antiembaçante. Pode ser usado em combinação a óculos com lentes de prescrição e óculos de proteção.

Protetor para barba

Descartável, confeccionado em polipropileno, com ajustes em elástico

Respirador facial inteiro

Confeccionado em silicone, com ajustes de tensão para posicionamento na face. Visor com lentes em policarbonato, que fornece proteção a impactos, antiembaçante. Equipado com duplo cartucho contendo filtros N100, P100 ou R100, que oferecem uma eficácia de 99,97% na filtração de partículas com 0,3 µ (o esporo do B. anthracis tem diâmetro de 2 a 6 µ).

 

ANEXO 2 – COLETA, RECOLHIMENTO E ACONDICIONAMENTO DO MATERIAL SUSPEITO

      Coletar o material suspeito e colocá-lo em embalagem plástica, com fechamento hermético, lacrar, rotular adequadamente e incluir a inscrição “RISCO BIOLÓGICO”. Acondicionar em embalagens específicas (kit) para transporte de amostras infecciosas, conforme disposto na Portaria MS nº 1.985, de 25 de outubro de 2001.

      As amostras devem ser embaladas em três camadas: um receptáculo impermeável dentro do qual se encontra a amostra; um segundo recipiente resistente, à prova de filtração, contendo material absorvente entre as suas paredes; e receptáculo interno, a ponto de garantir a absorção de todo o líquido em caso de vazamento, ou seja, uma embalagem externa destinada a proteger contra fatores externos, tais como impactos físicos e água durante o transporte.

      Encaminhar para o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) da unidade federada.

 

Observação: caso haja necessidade de encaminhamento da(s) amostra(s) para laboratório de referência, caberá ao Lacen receptor proceder o envio, de acordo com o fluxo de amostras biológicas e não-biológicas definido pela Coordenação Geral de Laboratórios da Secretaria de Vigilância em Saúde/MS.

Para agilização da remessa, deverão ser adotadas medidas junto às instituições públicas e privadas envolvidas no transporte de cargas.

 

ANEXO 3 – DESCONTAMINAÇÃO DE SUPERFÍCIES CONTAMINADAS POR B. ANTHRACIS

Para a operacionalização dos procedimentos de descontaminação de superfícies recomenda-se a utilização de equipamentos de proteção individual constantes do Anexo 1.

A equipe que executou a coleta e recolhimento do material suspeito, a partir de definição estratégica local, quando devidamente capacitada, poderá proceder às operações de descontaminação de superfícies.

Procedimentos de descontaminação:

 

Superfícies

Método I (aplicado para grupos 1 e 2 de proteção individual)

Esfregar com pano limpo, gaze ou algodão embebido em solução preparada a partir de produtos desinfetantes (Grupo A – Anexo 4)

Aguardar o tempo de contato recomendado para a substância e/ou produto utilizado

Secar com papel-toalha

Esfregar com pano limpo, compressa, gaze ou algodão embebido em álcool a 70% e aguardar secar

Acondicionar os papéis-toalha, gaze e algodão utilizados em sacos plásticos de cor branca, leitosa, com símbolo de risco biológico

Lacrar os sacos plásticos de forma a não permitir o derramamento de seu conteúdo, mesmo se virados para baixo. Uma vez fechados, precisam ser mantidos íntegros até o processamento ou destino final do resíduo biológico (aterro sanitário ou incineração)

 

      Método I. Este método é composto de três estágios, a saber:

 

Estágio 1: Desinfecção Preliminar

      Cobrir o material suspeito com papel-toalha.

      Colocar a solução desinfetante (Grupo A – Anexo 4), na quantidade de 1 a 1,5 litros por metro quadrado de área atingida, embebendo todo o papel-toalha.

      Deixar em contato por 2 horas.

      Remover os papéis-toalha, o resíduo do material suspeito e o excesso da solução desinfetante utilizando papel toalha.

      Acondicionar os papéis-toalha utilizados em sacos plásticos de cor branca leitosa com símbolo de risco biológico.

      Lacrar os sacos plásticos de forma a não permitir o derramamento de seu conteúdo, mesmo se virados para baixo. Uma vez fechados, precisam ser mantidos íntegros até o processamento ou destino final do resíduo biológico (aterro sanitário ou incineração).

 

Estágio 2: Limpeza

      Esfregar pano limpo ou escova embebidos em água quente sobre as superfícies, com vistas à retirada dos resíduos.

      Secar, preferencialmente, com papel-toalha e promover seu descarte como resíduo biológico.

      Acondicionar os papéis-toalha em sacos plásticos de cor branca, leitosa, com símbolo de risco biológico.

      Lacrar os sacos plásticos de forma a não permitir o derramamento de seu conteúdo, mesmo se virados para baixo. Uma vez fechados, precisam ser mantidos íntegros até o processamento ou destino final do resíduo biológico.

 

Estágio 3: Desinfecção Final

      Aplicar a solução desinfetante (Grupo B – Anexo 4) na proporção de 500 ml (meio litro) por metro quadrado de área atingida com tempo de contato de 2 horas.

      Retirar todo o excesso da solução desinfetante com papel-toalha.

      Acondicionar os papéis toalha em sacos plásticos de cor branca, leitosa, com símbolo de risco biológico.

      Lacrar os sacos plásticos de forma a não permitir o derramamento de seu conteúdo, mesmo se virados para baixo. Uma vez fechados, precisam ser mantidos íntegros até o processamento ou destino final do resíduo biológico.

 

      Método II. Descontaminação por fumigação: é recomendado para os casos em que houver indícios de que o material contaminado por B. anthracis foi submetido à suspensão ou dispersão no ambiente.

»     Estimar o volume da área a ser tratada;

»     Antes de iniciar-se o procedimento de fumigação o ambiente deverá ser preparado, com a vedação (material adesivo/fita) de portas, janelas, frestas ou quaisquer outras fontes de circulação de ar;

»     Os equipamentos de proteção individual deverão apresentar-se de acordo com o disposto no Anexo 5.

 

      Fumigação com equipamento específico: os ambientes podem ser fumigados por aquecimento da solução desinfetante.

»     Para cada 25-30m³, utilizar solução de 4 litros de água contendo 400 ml de formaldeído a 10%, a ser aplicada por equipamento de fumigação;

»     O tempo de fumigação deverá ser realizado de acordo com as especificações estabelecidas pelo fabricante do aparelho fumigador;

»     A descontaminação completa por fumigação do ambiente exposto ao material suspeito deverá ocorrer por um período de tempo maior que 12 horas, em temperatura acima de 18ºC e com umidade relativa superior a 70%;

»     O ambiente somente poderá ser aberto após 12 horas do início da fumigação, quando deverá ser retirado o material utilizado para a vedação e submetido complementarmente à limpeza e desinfecção da área. Recomenda-se, como produtos de desinfecção de mobiliários e equipamentos, o álcool a 70%, por 10 minutos (em 3 aplicações), e para teto, piso e paredes, o hipoclorito de sódio a 1% por 10 minutos ou formulações pertencentes à categoria de desinfetantes hospitalares (devidamente registrados na Anvisa), cuja diluição e tempo de exposição deverão atender às especificações de rotulagem.

 

Descontaminação de Equipamentos de Proteção Individual e Outros Materiais

      Equipamentos de proteção individual: os EPI não descartáveis, utilizados nas etapas de coleta, recolhimento e descontaminação, após o uso deverão ser submetidos a processo de descontaminação com produtos do Grupo D (Anexo 4), caso tolerem os tratamentos recomendados ou submetidos à esterilização por calor úmido a 121ºC por 30 minutos.

Observação: os EPI descartáveis deverão ser colocados em sacos plásticos autoclaváveis, lacrados e submetidos à esterilização por calor úmido a 121ºC por 30 minutos, para posterior descarte.

 

      Equipamentos e outros materiais (panos, roupas, utensílios, etc.): equipamentos, bem como outros materiais utilizados na coleta, recolhimento e descontaminação, deverão, sempre que possível, ser incinerados ou submetidos à esterilização por calor úmido a 121ºC por 30 minutos. Os que não puderem ser autoclavados, devem ser imersos em formaldeído com concentração e tempo de exposição indicada no Grupo D (Anexo 4) ou fumigados conforme o estágio III do Anexo 3.

 

ANEXO 4 – GRUPOS DE PRODUTOS DESINFETANTES

Grupo A

      Hipoclorito de sódio: este é o agente químico de escolha, exceto quando se trata de superfícies de corrosão.

»     Concentração recomendada: 1% (10 mil ppm (mg/l) ) de cloro ativo

»     Preparo da solução: para um volume de 10 litros, colocar 1 litro de solução de hipoclorito de sódio a 10% de cloro ativo (comercial) e completar com água

»     Tempo de exposição: 1 hora

      Formaldeído a 10%

»     Tempo de exposição: 2 horas

      Glutaraldeído a 4% (pH de 8-8,5)

»     Tempo de exposição: 2 horas

 

Grupo B

      Ácido peracético a 1%: agente químico de escolha, excetuando superfícies de corrosão

»     Tempo de exposição: 2 horas

      Formaldeído a 10%

»     Tempo de exposição: 2 horas

      Glutaraldeído a 4% (pH de 8-8,5)

»     Tempo de exposição: 2 horas

      Peróxido de hidrogênio a 3%

»     Tempo de exposição: 2 horas

 

Grupo C (Fumigação)

        Formaldeído a 10%

 

Grupo D

      Hipoclorito de sódio a 0,5%

»     Concentração recomendada: 0,5% (5 mil ppm (mg/l) ) de cloro ativo

»     Preparo da solução: para um volume de 10 litros, colocar 500ml de solução de hipoclorito de sódio a 10% de cloro ativo (comercial) e completar com água

»     Tempo de exposição: 2 horas

      Formaldeído a 4%

»     Tempo de exposição: acima de 8 horas

      Glutaraldeído a 2% (pH de 8-8,5)

»     Tempo de exposição: acima de 8 horas

 

ANEXO 5 – DESCONTAMINAÇÃO DE SUPERFÍCIES E AMBIENTES

Local

Descontaminação

Grupo do produto

Situação

EPI

Superfície que entrou em contato com B. anthracis

Método I

Grupos A e B

Material suspeito contido em envelope, caixa ou qualquer outro recipiente, não havendo indícios de contaminação aparente do meio externo

Máscara de proteção facial tipo respirador valvulado para partículas, sem manutenção, N95

Óculos de proteção ou protetor facial, em acrílico

Luvas de látex para procedimentos

Avental descartável com mangas compridas, punho em malha, gramatura 50

Superfície que entrou em contato com B. anthracis

Método I

Grupos A e B

No caso do material suspeito se apresentar exposto, de forma residual e localizada, em ambientes:

• não expostos a correntes de ar; desprovidos de sistema de climatização, condicionador de ambiente, exaustor ou ventilador de ar, ou

• presença, porém sem funcionamento, de sistema de climatização, condicionador de ambiente, exaustor e ventilador de ar

Macacão descartável gramatura 50, com capuz e elástico ou macacão em não-tecido, Tyvek com capuz e elástico

Luvas de borracha nitrílica ou luva emborrachada sobreposta a uma de látex (luva de procedimentos)

Máscara de proteção facial tipo respirador valvulado, sem manutenção, N95

Óculos de proteção ou protetor facial, em acrílico, incolor

Botas de borracha

Ambientes fechados expostos

Método II

Grupo C

No caso do material suspeito apresentar indicativo de suspensão ou dispersão no ambiente

Macacão emborrachado ou de PVC, com capuz e elástico

Luvas de borracha nitrílica, com luvas de látex (de procedimentos)

Botas de borracha

Respirador facial inteiro, com filtro N100, P100 ou R100

 

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