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Reumatismos de Partes Moles

Autores:

Diogo Souza Domiciano

Especialização em Residência Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Médico Colaborador da Reumatologia do HC-FMUSP.

Ana Lúcia de Sá Pinto

Doutorado em Reumatologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Médica Assistente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).

Última revisão: 28/03/2011

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INTRODUÇÃO

A dor musculoesquelética é um dos principais motivos de atendimento nos consultórios de clínica médica e reumatologia. Extremamente frequentes na população geral, os reumatismos de partes moles mais comumente vistos são bursites, tendinopatias, fasceítes, hipermobilidade articular e síndromes miofasciais, sem doença articular associada.

Na grande maioria dos casos, o diagnóstico é clínico e a resposta ao tratamento costuma ser boa. É de fundamental importância sempre considerar a possibilidade de dor referida no diagnóstico diferencial dessas doenças. Por exemplo, um paciente com colecistite aguda pode referir dor no ombro direito, um paciente com tumor pulmonar de Pancoast pode ter dor em região medial de membro superior e um paciente com artrite de quadril pode referir dor no joelho.

Embora amplamente utilizado, o termo tendinite não é o mais correto para definir o acometimento dos tendões. Não é comum o achado de processo inflamatório bem definido nessas estruturas. Na maioria das vezes, o achado histopatológico que se vê é uma degeneração angiofibroblástica, denominada tendinose. Na prática, é mais correto referir-se às dores com origem nos tendões como tendinopatias.

Na Tabela 1 estão as possíveis etiologias de dor periarticular, separadas por segmento articular. Neste capítulo, descreveremos apenas as entidades clínicas mais prevalentes na prática clínica diária.

 

Tabela 1: Principais causas de dor periarticular

Síndrome de dor miofascial

Síndrome de hipermobilidade articular

Ombro: tendinopatia de manguito rotador, síndrome do impacto do ombro, ruptura de tendão do manguito rotador, tendinopatia bicipital, bursites, capsulite adesiva

Cotovelo: bursite olecraneana, epicondilite lateral, epicondilite medial

Mão: tendinopatia de DeQuervain, síndrome do túnel do carpo

Quadril: bursite trocantérica, síndrome do piriforme

Joelho: bursites, plica sinovial, síndrome patelofemoral, síndrome da banda ileotibial, tendinopatia patelar


Pé: fasceíte plantar, síndrome do túnel do tarso, insuficiência de musculatura tibial posterior, bursites

 

SÍNDROME DE DOR MIOFASCIAL

Definição

A síndrome miofascial é uma importante causa de dor musculoesquelética, que se origina de um foco de hiperirritabilidade no músculo ou na fáscia, conhecido como ponto-gatilho (trigger point). Um estudo encontrou uma prevalência de 30% de dor miofascial em pacientes com queixas musculoesqueléticas.

 

Fisiopatologia

Comumente resulta de uma injúria muscular aguda, excesso de treino ou sobrecarga repetitiva, que levam a um desequilíbrio no metabolismo energético do músculo. Essa alteração metabólica é responsável pelo surgimento de um foco de contração contínua das unidades sarcoméricas musculares.

 

Achados Clínicos

A dor muscular é mal definida, profunda e descrita como fisgada ou em queimação, geralmente com sensação de rigidez local. Ela é agravada por utilização da musculatura, estresse psicológico, ansiedade, frio e desequilíbrio postural. Ao exame físico, a palpação do ponto doloroso desencadeia a dor com irradiação típica que não segue o trajeto dermatomérico. A intensidade da dor costuma ser desproporcional à força aplicada na palpação. As características dos pontos-gatilho são mostradas na Tabela 2. Os pontos miofasciais são mais comuns nas regiões da cabeça e pescoço, embora qualquer parte do corpo possa ser afetada. Grande parte das cefaleias tensionais está associada à presença de trigger points nessas regiões (músculos esternocleidomastoideo, trapézio, escalenos, mastigatórios).

 

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico e consiste na palpação da musculatura envolvida à procura do ponto-gatilho. Este ponto é identificado como uma região nodular que, quando pressionada, pode gerar contração visível de fibras musculares (twitch response). Não há necessidade de exames complementares para o diagnóstico.

 

Tratamento

O tratamento envolve várias modalidades terapêuticas complementares; entre elas, a mais efetiva é o agulhamento do ponto de contração muscular realizado a seco ou com lidocaína 1%. Outras medidas de tratamento incluem o alongamento associado à aplicação de spray congelante (p.ex., cloro etílico) – que é realizado na pele - ao longo do eixo das fibras musculares; as correções posturais e ergonômicas; as medicações – ainda não há evidência científica confirmada de seu benefício, porém, a analgesia com antidepressivos tricíclicos e miorrelaxantes é bastante utilizada como coadjuvantes no tratamento.

 

Tabela 2: As características do trigger point miofascial

Dor focal à palpação do ponto no músculo envolvido (cerca de 3 kg de pressão)

Induração focal no músculo observada na palpação

Restrição da amplitude de movimento do músculo envolvido (sem atrofia)

Dor referida à distância na palpação

 

SÍNDROME DE HIPERMOBILIDADE ARTICULAR BENIGNA

Definição

Essa síndrome é caracterizada por graus variáveis de frouxidão ligamentar e pode ser causa de dor periarticular. As articulações hiperflexíveis são comuns; alguns estudos sugerem uma prevalência de 10 a 25% na população geral, especialmente em caucasianos. É mais comum em meninas entre 3 e 10 anos e adolescentes do sexo feminino.

 

Achados Clínicos

As artralgias (mãos, ombros, quadris, joelhos e tornozelos) ocorrem com atividade física não usual e intensa, e são frequentes as entorses de repetição no tornozelo. Ao exame, não observamos artrites ou atrofia muscular. Efusões articulares podem ocorrer, em geral sem muitos sinais inflamatórios. A hiperextensão de cotovelos e joelhos maior que 10° (Figura 1), a capacidade do polegar de tocar a superfície anterior do antebraço e a hiperflexão do tronco – tocando as palmas das mãos inteiras no solo – são alguns sinais característicos dos pacientes com hipermobilidade articular.

 

Tratamento

O tratamento consiste na educação do paciente acerca da benignidade da condição, uso de analgésicos em caso de dor intensa, fortalecimento e alongamento muscular, além das correções das alterações posturais encontradas.

 

Figura 1: Hiperextensão do cotovelo > 10°.

 

 

PERIARTRITE DE OMBRO

O ombro é constituído de quatro articulações: glenoumeral, esternoclavicular, acromioclavicular e escapulotorácica. A anatomia é complexa e consiste de ossos, músculos, tendões, ligamentos e bursas. Os músculos supraespinhoso, infraespinhoso, redondo menor e subescapular conferem estabilidade e sustentação à articulação do ombro, e constituem o chamado manguito rotador. Ele é responsável pelos movimentos de rotação interna e externa do ombro, além da abdução. Lesão em qualquer uma dessas estruturas que envolvem as articulações pode ser causa de dor no ombro (Algoritmo 1).

 

Tendinopatia do Músculo Supraespinhoso

Dentre os músculos do manguito rotador, o supraespinhoso – localizado acima da espinha da escápula – é o mais frequentemente acometido. A dor manifesta-se na face anterolateral do braço, na região do deltoide, piorando ao deitar sobre o membro afetado e com abdução e flexão do braço. A dor à palpação do tubérculo maior do úmero e a restrição de movimentos ativos com dor à abdução resistida são sugestivos do acometimento desse tendão. Nos casos mais graves, pode haver ruptura do tendão, associada com dor e fraqueza muscular, especialmente à abdução do braço. A atrofia muscular também pode ser vista nesses casos.

 

Bursites

A bursa subacromial é mais comumente afetada; está localizada entre o acrômio da escápula e o tendão do músculo supraespinhoso. Há presença de dor local e de redução da amplitude de movimento ativa e passiva. Também é frequente a associação com tendinopatias do manguito rotador.

 

Síndrome do Impacto

Caracteriza-se pelo pinçamento do tendão do supraespinhoso na borda inferior do acrômio. Essa situação é comum nos atletas que praticam tênis, natação, voleibol e basquetebol, ou seja, atletas que praticam atividades que envolvem o uso repetitivo do braço no mesmo nível ou acima de 90° de abdução do ombro. O impacto pode ser diagnosticado quando aparece à dor na flexão do braço a 130° – teste do impacto de Neer – e entre 70 e 120° de abdução, movimento conhecido como arco doloroso de Simmonds (Figura 2).

 

Figura 2: Arco doloroso de Simmonds.

 

Capsulite Adesiva

Essa condição é definida pelo início insidioso de uma dor difusa e rigidez no ombro, com limitação severa da amplitude de movimento. A dor é severa e piora ao toque, com restrição de 50 a 60% da movimentação ativa e passiva em todos os planos. A doença pode levar meses a anos, com recuperação parcial na maioria dos casos. Ela está relacionada a diversas situações clínicas, como diabetes mellitus, trauma, cirurgias, neuropatias compressivas, hipertireoidismo, neoplasias, infarto do miocárdio, bursites e tendinopatias do ombro.

Embora o diagnóstico seja essencialmente clínico, em todas essas condições descritas os exames de imagem podem auxiliar no diagnóstico diferencial entre patologias intra ou extra-articulares. As radiografias e a ultrassonografia (USG) têm sido usadas para avaliar as lesões do manguito rotador. Esses exames têm a vantagem de serem rápidos e não invasivos, no entanto, um ponto negativo para o ultrassom é que o resultado pode ser operador-dependente. A ressonância magnética (RNM) também pode ser utilizada para a caracterização de lesões tendíneas e da capsulite adesiva.

O tratamento do ombro doloroso envolve repouso relativo, analgesia com anti-inflamatórios, calor local e infiltração com corticoide. A fisioterapia motora tem papel essencial na recuperação do paciente, objetivando o alongamento da musculatura afetada, a manutenção ou o ganho de amplitude de movimento e o fortalecimento do complexo muscular do ombro.

 

Algoritmo 1: Principais etiologias da dor no ombro.

 

EPICONDILITE LATERAL

Definição

É também conhecida como “cotovelo do tenista”, essa é uma condição de sobrecarga (overuse) no cotovelo que afeta a origem comum dos músculos extensores do punho e dos dedos no epicôndilo lateral do úmero, especialmente o tendão do músculo extensor radial curto do carpo. Afeta 1,3% da população entre 30 e 65 anos de idade e não apresenta diferença entre os sexos. A epicondilite lateral é 7 vezes mais frequente que a epicondilite medial, e esta é conhecida como “cotovelo do golfista”.

 

Fisiopatologia

O termo epicondilite não é o mais correto, porque histologicamente não há reação inflamatória clássica nestas estruturas. Trata-se de um processo degenerativo angiofibroblástico (tendinose), com rupturas microscópicas que não cicatrizam adequadamente, secundárias à tensão excessiva das estruturas envolvidas. Apesar de o nome popular estar relacionado às modalidades esportivas, apenas 5 a 10% dos casos são atletas ou esportistas. Os indivíduos com atividades ocupacionais que exigem a utilização dos membros superiores em esforços repetitivos, como operadores de máquinas, metalúrgicos, digitadores, empregadas domésticas, motoristas de caminhão ou ônibus correspondem a 90 a 95% dos casos.

 

Achados Clínicos

O paciente queixa-se de dor na região lateral do cotovelo, que pode se irradiar distalmente ao longo da superfície extensora do antebraço. A dor tende a piorar com as atividades de extensão do cotovelo, aperto de mão e ao segurar uma pasta ou mala. Ao exame, além da dor local à palpação, duas manobras merecem destaque: os testes de Cozen e de Mills. O teste de Cozen é realizado com o paciente com a mão fechada, o punho em dorsiflexão e o cotovelo em 90° de flexão. O examinador força o punho em flexão e o paciente é orientado a resistir ao movimento. Em caso positivo, o paciente refere dor no epicôndilo lateral. O teste de Mills é realizado com o cotovelo em 90° de flexão e com o antebraço em pronação. É solicitado ao paciente que realize a extensão ativa do punho contra a resistência imposta pelo examinador. O teste é positivo quando há dor no epicôndilo lateral.

 

Diagnóstico

É essencialmente clínico, dispensando exames complementares na maioria das vezes. Em casos crônicos ou refratários, no entanto, a radiografia, a USG, a RNM e a eletroneuromiografia podem auxiliar na diferenciação com outras causas de dor no cotovelo, como tendinopatias, artrites, radiculopatias e neuropatias compressivas.

 

Tratamento

O tratamento consiste na interrupção inicial da atividade desencadeante até a resolução da dor, além de exercícios de fortalecimento da musculatura flexora e alongamento de músculos da superfície extensora do antebraço. Gelo local e analgésicos/anti-inflamatórios podem ser utilizados para o alívio da dor. As órteses de repouso da articulação do punho auxiliam na estabilização da musculatura. Nos casos em que não há resposta, pode ser feita a infiltração com anestésicos ou corticoides, com muita cautela pelo risco de atrofia local e pela ruptura de tendão. A cirurgia só é indicada nos casos mais refratários ao tratamento clínico.

 

TENDINOPATIA DE DEQUERVAIN

Definição

É o comprometimento da bainha dos músculos abdutor longo e extensor curto do polegar no 1º compartimento dorsal do punho. Essa tendinopatia acomete mais frequentemente as mulheres na faixa etária entre 30 e 50 anos.

 

Fisiopatologia

Está associada principalmente a trauma crônico e sobrecarga das atividades diárias das mãos e dos punhos, com movimentos repetitivos do polegar com desvio ulnar do punho –- comum em digitadores e costureiras. Ela também pode ser secundária ao acometimento inflamatório de doenças como artrite reumatoide e artrite psoriásica, ou em condições fisiológicas como a gravidez.

 

Achados Clínicos

Dor na região distal do punho, de 1 a 2 cm distal ao processo estiloide do rádio, que piora com abdução do polegar. O teste de Finkelstein, caracterizado pela flexão completa do polegar até a palma e seguido pelo desvio ulnar do punho, desencadeia a dor (Figura 3).

 

Diagnóstico

Também é essencialmente clínico e em geral não há necessidade de exames complementares. A USG e a RNM podem demonstrar alterações na bainha dos tendões.

 

Tratamento

O tratamento inicial é feito com repouso e anti-inflamatórios, e, em alguns casos, a imobilização do polegar com órtese de repouso, com o polegar em leve extensão. O tratamento fisioterápico deve ser iniciado após a fase aguda, com o objetivo de aumentar a amplitude de movimento e a força muscular, e recuperar as funções do punho e do polegar.

 

Figura 3: Teste de Finkelstein.

 

SÍNDROME DO TÚNEL DO CARPO

Definição

O túnel do carpo é um canal delimitado pelos ossos do carpo – que lhe servem de base – e o ligamento transverso do carpo (retináculo dos flexores) – que compõe o teto do túnel. Por esse canal, passam o nervo mediano e os 9 tendões responsáveis pela flexão dos dedos. A síndrome do túnel do carpo é uma neuropatia compressiva do nervo mediano dentro do canal do carpo. Na maioria dos casos, os sintomas aparecem entre 40 e 60 anos de idade, porém, essa síndrome pode ocorrer em qualquer faixa etária a partir da idade adulta. Em quase 90% dos casos, aparece no sexo feminino.

 

Fisiopatologia

A causa mais comum é a tendinopatia dos flexores dos dedos que passam no túnel do carpo e, em geral, está associado ao uso excessivo dos flexores. Várias situações clínicas também podem predispor ao aparecimento da síndrome, como hipotireoidismo, amiloidose, diabetes, artrite reumatoide e gravidez.

 

Achados Clínicos

A parestesia e a dor em queimação ou sensação de choque nas mãos são típicas nesses pacientes. A dor é pior à noite e no trajeto sensitivo do nervo mediano – particularmente primeiro, segundo e terceiro quirodáctilos. A fraqueza muscular e a atrofia podem ocorrer em casos severos. No teste de Tinel (Figura 4), faz-se a percussão sobre a porção proximal do ligamento carpal transverso. O teste é positivo quando ocorre parestesia. No teste de Phalen (Figura 5), mantém-se o punho fletido em 90° durante 1 minuto. Ocorrendo o aparecimento dos sintomas, o teste é positivo.

 

Diagnóstico

Na maioria das vezes, é clínico podendo ser realizada eletroneuromiografia nos casos duvidosos, assim como RNM e USG, que avaliam as alterações no túnel do carpo.

 

Figura 4: Teste de Tinel.

  

Figura 5: Teste de Phalen.

 

Tratamento

O tratamento inicial pode ser feito com a imobilização da região do punho em posição neutra com tala ou órtese, para uso noturno. As infiltrações com corticoides são usadas em casos mais graves. É importante lembrar que os fatores desencadeantes ou que pioram a doença devem ser retirados e as doenças de base, adequadamente tratadas.

 

BURSITE TROCANTÉRICA

Definição

É a causa mais comum de dor no quadril e a sua incidência é maior nas mulheres peri e pós-menopausa. Existem 3 bursas que envolvem o tendão do músculo glúteo máximo no quadril, sendo a trocantérica a mais importante. Essa bursa fica localizada sobre o grande trocânter do fêmur e junto à inserção do músculo glúteo médio.

 

Fisiopatologia

Essa bursite está associada a fatores biomecânicos – como discrepância de altura de membros inferiores e encurtamento da musculatura rotadora de coxa –, tendinopatia crônica do glúteo médio, trauma na região e, principalmente, obesidade e patologias mecânicas do quadril.

 

Achados Clínicos

Presença de dor local e profunda, descrita como queimor, que pode irradiar pela face lateral da coxa. Essa dor pode piorar com caminhadas, ao subir escadas e ao agachar. A pseudoclaudicação ocorre em 15% dos casos. Ao exame, observa-se dor à palpação sobre o trocânter maior do fêmur e dor à abdução da coxa.

 

Diagnóstico

É essencialmente clínico. A USG e a RNM podem ser indicadas nos casos de dúvida diagnóstica, na busca de fatores associados, como a tendinopatia de glúteos, e se o quadro clínico for refratário ao tratamento. O diagnóstico diferencial deve ser feito com patologias do quadril, radiculopatias e síndromes miofasciais.

 

Tratamento

O repouso na fase aguda e a infiltração local com corticoides são altamente efetivos no alívio dos sintomas. A reabilitação com alongamento e posterior fortalecimento das musculaturas glútea e tensora da fáscia lata, assim como a correção dos fatores biomecânicos associados – por exemplo, palmilha para corrigir a discrepâncias de membros inferiores – são importantes condutas para evitar a recorrência dos sintomas.

 

PERIARTRITE DE JOELHO

A articulação do joelho é envolvida por várias bursas sinoviais e tendões que podem ser sede de injúria e de dor.

A bursite anserina é a inflamação da bursa que envolve os tendões dos músculos sartório, grácil e semitendíneo; é assim chamada pelo aspecto morfológico semelhante à pata de ganso da inserção tendínea. Essa bursite manifesta-se com dor na região superomedial da tíbia, que piora com os movimentos e à caminhada, e melhora com o repouso. O diagnóstico é clínico e consiste na palpação dolorosa da inserção dos músculos, a cerca de 5 cm abaixo da interlinha medial do joelho.

A bursite subcutânea pré-patelar é caracterizada por dor e edema na região anterior à patela. Essa é a localização dessa bursa superficial, que se torna vulnerável a traumas e infecção.

A bursite subcutânea infrapatelar aparece como edema proximal na tíbia, entre a pele e a tuberosidade tibial. Ocorre em indivíduos que permanecem longos períodos em posição ajoelhada – padres e ladrilheiros.

Tendinopatia patelar é conhecida como jumper’s knee pelo frequente acometimento de atletas que praticam esportes que envolvam salto, como os jogadores de basquete e os corredores. A dor é no polo inferior da patela que piora com a corrida, com os saltos e ao subir escadas.

Uma causa de dor relativamente comum na região posterior do joelho é o cisto poplíteo (cisto de Baker), que se origina a partir das bursas dos músculos semimembranoso e gastrocnêmio, os quais se comunicam com a articulação do joelho. A incidência aumenta com a idade e está intimamente associada com patologias crônicas de joelho, como a osteoartrite e a artrite reumatoide. Observa-se um abaulamento na região póstero-medial de joelho, doloroso ou não, que é mais bem visualizado com joelho estendido. Muitas vezes é diagnosticado somente quando há ruptura do cisto, com início súbito de dor na região superior da panturrilha, simulando um quadro de trombose venosa profunda. A USG pode ser necessária para fazer o diagnóstico diferencial entre o cisto e a trombose venosa profunda.

O tratamento de todas essas condições é semelhante. É importante fazer a correção dos fatores mecânicos associados, controlar as doenças de base, reduzir a intensidade dos treinamentos no caso dos atletas, mudar a atividade laboral, usar anti-inflamatórios e infiltração de corticoides, e, principalmente, manter a musculatura adjacente às bursas fortalecida e alongada.

 

SÍNDROME PATELOFEMORAL

Definição

Trata-se de uma condição ligada à degeneração da cartilagem patelar com atrito entre as superfícies articulares patelar e femoral. Do ponto de vista anatomopatológico, é traduzido como condromalácia de patela.

 

Fisiopatologia

Está associada a: overuse ou sobrecarga excessiva, fatores biomecânicos como disfunção muscular de quadríceps e musculatura abdutora da coxa, pés planos ou cavos e aumento do ângulo Q, formado pela intersecção de uma linha que vai da espinha ilíaca anterossuperior até o centro da patela e outra linha do centro patelar até a tuberosidade da tíbia.

 

Achados Clínicos

A dor retropatelar ou peripatelar lateral piora com flexão completa do joelho, como permanecer sentado por período prolongado, e também ao descer e subir escadas. Ao exame, observa-se dor à pressão patelar e à hipermobilização lateral da patela, e crepitação femoropatelar na flexão do joelho ou à preensão patelar.

 

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, podendo ser utilizados exames de imagem para complementação diagnóstica e para avaliação da extensão do desgaste da cartilagem. A radiografia de joelhos – na incidência axial de patela – pode mostrar a lateralização excessiva da patela (Figura 6), e a RNM mostra alterações degenerativas da cartilagem patelar.

 

Tratamento

O uso de analgésicos ou de anti-inflamatórios e o repouso na fase aguda devem ser seguidos de fisioterapia para fortalecimento e alongamento muscular, e possíveis correções dos fatores biomecânicos são suficientes para controlar o quadro clínico. Ainda há não consenso na literatura com relação ao uso dos condroprotetores, de modo que os pacientes devem ser avaliados de forma individual para a prescrição desses medicamentos.

 

Figura 6: Patela lateralizada na radiografia axial do joelho.

 

FASCEÍTE PLANTAR

Definição

A principal causa de dor não articular nos pés é a inflamação da fáscia plantar. Esta aponeurose que age na sustentação do arco longitudinal do pé une os 3 principais pontos de pressão nos pés: o calcâneo e as cabeças do metatarso, especialmente a primeira e a quinta.

 

Fisiopatologia

Geralmente é resultado de um trauma repetitivo das fibras da fáscia, apresenta uma maior incidência entre 40 e 60 anos de idade e é bilateral em 1/3 dos casos. É frequente em corredores ou nos portadores de doenças inflamatórias como as espondiloartropatias. Os principais fatores de risco associados à fasceíte são a obesidade, a permanência de pé por períodos prolongados, os pés planos, a redução da flexão dorsal dos tornozelos, a exostose do calcâneo inferior, o encurtamento do tendão do calcâneo, os sapatos inadequados e a discrepância de comprimento dos membros inferiores.

 

Achados Clínicos

Presença de dor insidiosa sob o tornozelo, especialmente na inserção da fáscia na região medial, que piora pela manhã aos primeiros passos, ou após um período de repouso, melhorando com caminhada. Dor à palpação anteromedial do calcâneo, sensibilizada pela flexão dorsal dos dedos e eversão do pé.

 

Diagnóstico

Exames de imagem como RNM, USG e cintilografia são necessários apenas nos casos crônicos e refratários ao tratamento, ou quando há suspeita de doença inflamatória de base, como as espondiloartropatias. O diagnóstico diferencial inclui a entesopatia de calcâneo, as fraturas de estresse, a radiculopatia S1 e as neuropatias compressivas, como a síndrome do túnel do tarso posterior.

 

Tratamento

A condição pode ser autolimitada – de 6 a 18 meses –, porém, o tratamento precoce (menos de 6 semanas) confere um melhor prognóstico. Repouso inicial, gelo local e anti-inflamatórios auxiliam no alívio da dor. No entanto, o mais importante é a correção dos fatores desencadeantes associados, com o alongamento da fáscia plantar e das panturrilhas, o fortalecimento da musculatura intrínseca dos pés, o uso de órteses e de palmilhas para suporte de arco longitudinal do pé. Nos casos graves, a infiltração de corticoides pode ser realizada, mas os resultados são controversos.

 

TÓPICOS IMPORTANTES

Dada a incidência extremamente elevada dos reumatismos de partes moles na prática clínica, é essencial para o médico geral adquirir noções básicas para o diagnóstico e o tratamento dessas condições.

A grande maioria dessas lesões é facilmente diagnosticada pelo quadro clínico, sem necessidade de exames de imagens sofisticados, e a resposta ao tratamento conservador costuma ser ótima.

Os fatores relacionados à etiologia da condição, sejam biomecânicos, relacionados à prática desportiva ou funções ocupacionais, devem ser considerados porque o sucesso do tratamento a longo prazo depende da correção desses fatores. Para tanto, o conhecimento adequado dessas doenças é fundamental.

 

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