FECHAR
Feed

Já é assinante?

Entrar
Índice

Doença Arterial Coronariana Crônica

Autores:

Jordana de Fraga Guimarães

Médica internista.

Mariana Vargas Furtado

Médica emergencista e cardiologista. Mestre em Cardiologia pela UFRGS.

Última revisão: 30/10/2013

Comentários de assinantes: 0

Versão original publicada na obra Fochesatto Filho L, Barros E. Medicina Interna na Prática Clínica. Porto Alegre: Artmed; 2013.

 

Caso Clínico

Um paciente do sexo masculino, 60 anos, apresenta dor retroesternal em aperto, desencadeada por esforço físico moderado, com duração de 10 a 15 minutos, e alívio com repouso. É fumante desde os 15 anos e hipertenso em tratamento irregular há mais de seis anos. Ao realizar exame físico, verificou-se pressão arterial de 150/90 mmHg; frequência cardíaca de 80 bpm; peso de 90 kg; altura de 1,70 m; índice de massa corporal (IMC) de 31 kg/m2. Exame de sistemas com presença de B4 na ausculta cardíaca, sem outros achados. O paciente traz eletrocardiograma de repouso normal, realizado há 20 dias.

 

Definição

A cardiopatia isquêmica (CI) é definida como doença arterial coronariana (DAC) relacionada à aterosclerose, com obstrução do fluxo sanguíneo, resultando em uma diminuição da distribuição de oxigênio para o miocárdio. Ela pode ser causada também por espasmo coronário, alteração da reserva vasodilatadora coronária ou por trombose e apresenta diferentes espectros de doença de acordo com o grau de obstrução e a natureza aguda ou crônica.

A origem da DAC é multifatorial, com componente inflamatório importante, tendo evolução crônica. Esta pode apresentar-se, clinicamente, de várias formas: morte súbita, infarto agudo do miocárdio (IAM), angina estável, angina instável, insuficiência cardíaca, arritmias e isquemia silenciosa (alteração em testes funcionais sem sintomas). Neste capítulo, é abordada a angina estável, uma das formas de apresentação da CI.

A angina estável refere-se à síndrome clínica caracterizada por desconforto ou dor no tórax, no epigástrio, na mandíbula, no ombro, no dorso ou nos membros superiores, tipicamente desencadeada por exercícios ou estresse emocional e aliviada por repouso ou com uso de nitratos. A principal causa é o processo aterosclerótico nas artérias coronárias, entretanto outras condições, como a miocardiopatia hipertrófica ou dilatada, a estenose aórtica ou a hipertensão arterial sistêmica não controlada, podem levar à isquemia miocárdica e produzir sintomas semelhantes.

 

Epidemiologia

No Brasil, as doenças cardiovasculares são as principais causas de mortalidade em indivíduos entre 45 e 64 anos, e a sua prevalência aumenta consideravelmente com a idade. Entre os homens, a CI é a principal e, entre as mulheres, é a segunda causa de morte mais recorrente nessa faixa etária. Estima-se que mais de 60 mil brasileiros morram por CI, com uma taxa de mortalidade específica para doença isquêmica do coração de 47/100.000 habitantes no ano de 2006.

O desenvolvimento de placas ateroscleróticas está associado principalmente à presença de fatores de risco, que aumentam a probabilidade do diagnóstico de angina estável:

 

•Idade aumentada (homens com idade igual ou superior a 45 anos; mulheres com idade igual ou superior a 55 anos).

•Sexo masculino.

•Fatores de risco cardiovascular:

–hipertensão arterial sistêmica (HAS);

–dislipidemia;

–diabetes melito;

–história de tabagismo;

–história familiar prematura de DAC (pai ou irmão com IAM definitivo ou morte súbita com idade igual ou inferior a 55 anos; mãe ou irmã com IAM definitivo com idade igual ou inferior a 65 anos);

–presença de outra doença cardiovascular.

 

Patogênese

O processo fisiopatológico responsável pela angina estável é a diminuição crônica da luz da artéria coronária por aterosclerose, que leva a uma diminuição do fluxo sanguíneo. Quando a necessidade de oxigênio pelo miocárdio aumenta, como durante atividade física, a distribuição de sangue pode não ser suficiente, surgindo sintomas de isquemia miocárdica, como a angina. Os sintomas isquêmicos, como dor ou desconforto torácico, costumam surgir quando mais de 70% do diâmetro de um vaso epicárdico ou mais de 50% do tronco da coronária esquerda está comprometido. As oclusões que se desenvolvem lentamente podem estimular, ao longo do tempo, a formação de vasos colaterais. A inflamação tem sido relacionada a diversos estágios de desenvolvimento da placa vulnerável, desde a deposição de conteúdo lipídico até a ruptura de placa e as complicações trombóticas.

 

Quadro Clínico

Estabelecer o quadro clínico é uma das etapas mais importantes na adequada avaliação do paciente que se apresenta com dor torácica crônica de origem cardíaca. Uma anamnese adequada é capaz de estimar com boa acurácia a probabilidade de o paciente apresentar cardiopatia isquêmica significativa (Quadro 3.1).

 

Sinais e Sintomas

Além das características da dor (p. ex., tipo, localização, irradiação, duração, fatores desencadeantes e de melhora e sintomas associados), é importante valorizar as características da população que está sendo investigada (p. ex., idade, sexo, fatores de risco ateroscleróticos) e o contexto de atendimento (p. ex., emergência, pronto atendimento ou ambulatório). O exame físico e os testes laboratoriais, os eletrocardiográficos e os de imagem auxiliam na avalia ção diagnóstica e prognóstica, determinando a gravidade da doença (Tab. 3.1).

Os equivalentes anginosos são definidos como sintomas de isquemia miocárdica que não dor. Podemapresentar-se como dispneia, fadiga e tontura. Idosos, diabéticos e mulheres, mais comumente, referem esses sintomas em vez dos da angina típica.

Para pacientes com quadro típico de angina, deve-se classificar a gravidade dos sintomas: grau de atividade indutora de angina. A classificação mais utilizada é a da Sociedade Cardiovascular Canadense (Tab. 3.2), sendo especialmente útil para identificar piora funcional do paciente e resposta à terapia proposta.

 

 

Diagnóstico

Exame físico

O exame físico de pacientes com DAC é, em geral, inespecífico, pois apenas 20% dos pacientes apresentam alterações significativas na avaliação inicial. Enquanto há dor, podem apresentar B3, B4, sopro pansistólico de insuficiência mitral e/ou crepitantes nos campos pulmonares inferiores bilaterais. O exame físico, entretanto, pode fornecer informações importantes no diagnóstico diferencial, como doenças valvulares, miocardiopatia hipertrófica e arritmias cardíacas com frequência aumentada. Deve-se palpar a parede torácica para avaliar a dor em casos de síndromes musculoesqueléticas. Pulsos diminuídos em membros inferiores e aneurisma abdominal são fatores indicativos de doença vascular e aumentam a probabilidade de ocorrência de DAC, assim como pressão arterial elevada, xantomas e exsudatos retinianos indicam presença de fatores de risco para doença aterosclerótica. O exame físico deve incluir a medida do índice de massa corporal (IMC) e a medida da circunferência abdominal para avaliar se há síndrome metabólica.

De acordo com as características da dor, a idade do paciente, o sexo e os achados do exame físico e, eventualmente, os do eletrocardiograma, é possível estabelecer a probabilidade de os sintomas serem atribuídos à isquemia miocárdica (Tab. 3.3). Para os indivíduos com probabilidade muito baixa, deve-se investigar outras etiologias dos sintomas. Aqueles com probabilidade muito elevada, baseada na história clínica, não necessitam de testes adicionais e devem ser imediatamente tratados.

Um número significativo de pacientes encontra-se em faixas intermediárias de risco, e, para esses, testes não invasivos de isquemia miocárdica podem auxiliar no diagnóstico.

 

 

 

Exames Complementares

Exames laboratoriais

Os exames laboratoriais devem fornecer informações sobre possíveis causas de isquemia e diagnosticar fatores de risco associados. Recomenda-se para todos os pacientes a solicitação de creatinina sérica, para avaliação da função renal; hemograma completo, para saber se há anemia, e valor prognóstico da série branca. Caso haja suspeita de doença de tireoide, solicita-se exame para verificação dos hormônios tireóideos, que podem representar a causa da isquemia. Para pesquisa de fatores de risco, indica-se os exames para checagem de glicemia e perfil lipídico, em jejum, que incluem colesterol total, colesterol HDL e triglicerídeos.

 

Raio X de tórax

Esse exame deve ser solicitado apenas para pacientes com suspeita de insuficiência cardíaca ou sinais e sintomas de doenças pleuropulmonares, pois não adiciona informação diagnóstica ou prognóstica em pacientes com DAC.

 

ECG de repouso

Recomenda-se para todos os pacientes com suspeita de cardiopatia isquêmica. O eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações pode mostrar sinais de infarto miocárdico prévio ou padrão de repolarização anormal, como indicativos de DAC. Entretanto, um exame normal é comum e não exclui o diagnóstico de isquemia.

 

Métodos provocativos de isquemia – ECG de esforço

Durante muitos anos, o ECG de esforço foi considerado como método diagnóstico inicial para pacientes com angina e probabilidade pré-teste moderada de DAC, com base em gênero, idade e sintomas, por ser de fácil acesso e de baixo custo. Recomendações recentes têm questionado o uso nesse contexto, pois um exame negativo não exclui a doença nesses casos; por isso, exames de imagem funcionais (p. ex., cintilografia miocárdica e ecocardiografia de estresse) são mais indicados, devido à acurácia diagnóstica do teste ser superior. O ECG de esforço está recomendado, então, para avaliação prognóstica nos pacientes com doença definida. Ele não deve ser solicitado, entretanto, para pacientes que não conseguem fazer atividade física ou que apresentem alguma alteração no ECG basal que impossibilite a interpretação do exame, como, por exemplo, bloqueio de ramo esquerdo (BRE). Se for o único método diagnóstico disponível, é importante considerar que apresenta uma baixa sensibilidade (45 a 50%), mas uma alta especificidade (85 a 90%), o que confere ao teste baixo índice de falso-positivo.Um resultado negativo, porém, não exclui a doença, e a investigação diagnóstica deve prosseguir. O Quadro 3.2 traz os achados do ECG de esforço que indicam isquemia miocárdica.

A escolha de um teste não invasivo de imagem funcional de isquemia miocárdica vai depender da disponibilidade e da experiência local, da tecnologia, da preferência do paciente e das contraindicações dos métodos.

 

 

  

 

Cintilografia miocárdica de esforço (farmacológica ou com exercício)

Esse exame é mais eficaz do que o ECG de esforço para o diagnóstico de DAC na identificação de doença de múltiplos vasos e na determinação do tamanho da área isquêmica. Recomenda-se, como avaliação diagnóstica inicial, para pacientes com moderada a alta probabilidade de DAC. A realização do exame está especialmente indicada quando o ECG basal do paciente estiver alterado (p. ex., presença de bloqueio de ramo esquerdo, depressão do segmento ST maior do que 1 mm basal, ritmo de marca-passo), dificultando a interpretação do ECG durante o estresse. Indica-se estresse farmacológico para os pacientes que não conseguem realizar exercício físico.

 

Ecocardiografi a de estresse

Esse exame possibilita saber a localização e a extensão da isquemia miocárdica durante o esforço. Entretanto, é tecnicamente mais difícil de ser realizado. Ele apresenta boa acurácia para detecção de isquemia miocárdica, sendo indicado para pacientes com probabilidade pré-teste intermediária ou alta. Quando comparado à ergometria, tem mais sensibilidade e especificidade para o diagnóstico de cardiopatia isquêmica. A ecocardiografia de estresse farmacológico também está indicada para os indivíduos com impossibilidade física de realizar a ergometria e para aqueles com limitação para interpretação da ergometria (p. ex., bloqueio completo do ramo esquerdo, infradesnível do segmento ST maior que 1 mm em repouso, marca-passo, síndromes de pré-excitação).

 

Tomografia computadorizada com escore de cálcio

Esse tipo de tomografia deve ser considerada para os pacientes com baixa probabilidade de DAC. Se o escore de cálcio for igual a zero, deve-se procurar outras causas de dor torácica. Pacientes com escore maior do que 400 devem ser posteriormente investigados a partir da realização de teste funcional de imagem ou de angiografia coronária.

É importante ressaltar que esses exames não têm um desempenho perfeito para o diagnóstico de cardiopatia isquêmica quando comparados ao ainda considerado padrão-ouro: a cineangiocoronariografia. Portanto, o médico que solicita esses testes funcionais deve ter já estabelecidas a probabilidade pré-teste de presença e a gravidade da isquemia, bem como a interpretação do resultado do teste em relação a essa probabilidade. Para pacientes em que o diagnóstico de angina estável não pode ser confirmado ou excluído clinicamente e que apresentam elevada probabilidade de DAC, considera-se a angiografia coronária como exame diagnóstico.

 

Tratamento

Clínico

Os objetivos são prevenir a morbimortalidade e reduzir sintomas, propiciando uma qualidade melhor de vida.

Os fatores de risco devem ser abordados simultaneamente (ver Capítulos Hipertensão arterial sistêmica e Diabetes melito). Outras condições sistêmicas que podem determinar menor oferta de oxigênio ao miocárdio e, consequentemente, reduzir o limiar da angina – como a anemia, o hipotireoidismo e a doença pulmonar obstrutiva crônica – devem ser investigadas e tratadas adequadamente.

 

Medidas não farmacológicas

Perdadepeso: O IMC e a circunferência abdominal devem ser medidos regularmente. O valor de IMC indicado para os cardiopatas é de 18,5 e 24,9 kg/m2; e a medida de circunferência abdominal é de valor igual ou inferior a 89 cm, para mulheres, e de valor igual ou menor do que 102 cm, para os homens. Um programa de atividade física, de dieta hipocalórica e de mudança nos hábitos de vida deve ser encorajado para o alcance das medidas adequadas. Os benefícios relacionados ao alcance dessas medidas são melhora do perfil pressórico e lipídico e da resistência à insulina.

 

Atividade física: O sedentarismo é um dos fatores de risco para a aterosclerose e constitui um problema de saúde pública, devendo ser incentivada a atividade física de acordo com o limiar individual dos sintomas isquêmicos. A prática de atividade física estruturada regular (150 min/ semana) aumenta o HDL-c e diminui o colesterol total, o LDL e os triglicerídeos e, ainda, diminui os índices de hemoglobina glicada em pacientes diabéticos. Observa-se também uma significativa diminuição de pressão sistólica e diastólica e melhora da capacidade cardiorrespiratória.

O programa de exercícios deve estar de acordo com a capacidade funcional individual. Para isso, recomenda-se um teste ergométrico de esforço a fim de determinar a frequência cardíaca limiar, na qual o paciente não tenha alterações eletrocardiográficas ou sintomas isquêmicos, como dor torácica.

 

Dieta: Deve-se estimular uma dieta rica em fibras, pobre em sal, rica em potássio e com grande quantidade de frutas, legumes, verduras e produtos lácteos (dieta DASH). É importante encorajar também a redução de ácidos graxos saturados (menos de 7% do total de calorias diárias) e de colesterol (menos de 200 mg/dia). A mudança nos hábitos alimentares é especialmente importante para a hipertrigliceridemia. Uma dieta com redução da quantidade de sal sempre é estimulada para um melhor controle dos níveis pressóricos. O consumo de álcool deve ser moderado.

 

Tabagismo: É recomendada a cessação do tabagismo. Diversas intervenções farmacológicas e não farmacológicas, inclusive o simples aconselhamento para parar de fumar, apresentam benefício comprovado para o efetivo abandono do tabagismo. A farmacoterapia com dispositivos com nicotina ou a bupropiona melhora, de forma clinicamente significativa, a cessação do hábito de fumar.

 

Medidas farmacológicas

Prevenção de infarto e redução da mortalidade

Antiagregantes plaquetários: São indicados para todos os pacientes com CI. Os benefícios incluem a redução do risco cardiovascular (p. ex., morte súbita, IAM e acidente vascular cerebral [AVC]). Doses maiores não aumentam a efetividade, mas os efeitos adversos, sendo 100 mg a dose diária recomendada. Em caso de intolerância ou contraindicação ao ácido acetilsalicílico, é recomendado clopidogrel ou ticlopidina.

 

Bloqueadores ß-adrenérgicos: Têm efeito anti-isquêmico decorrente da diminuição da frequência cardíaca e da pressão arterial, melhorando a perfusão coronariana pelo aumento do tempo de diástole e redução do consumo de oxigênio, principalmente durante exercício ou em situações de ativação adrenérgica. Em pacientes pós-IAM, há benefício na redução da mortalidade total, da recidiva de infarto e da isquemia e da angina e em uso contínuo e prolongado. A indicação de uso desses fármacos estende-se para os pacientes com angina estável sem IAM prévio, com ou sem disfunção ventricular.

 

Inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECAs): Existem quatro mecanismos determinantes do potencial efeito anti-isquêmico dos IECAs: vasodilatação, aumento da concentração de óxido nítrico e estabilização da placa, redução do consumo de oxigênio pelo miocárdio e aumento do fluxo coronariano (maior perfusão subendocárdica). Os IECAs são recomendados para pacientes com CI e disfunção ventricular, fração de ejeção (FE) reduzida e/ou diabetes. Há evidência clinicamente significativa de que os IECAs reduzem a mortalidade e a incidência de eventos cardiovasculares. Esses benefícios parecem se estender também para indivíduos com menos risco, mas as evidências não são tão consistentes.

 

Antagonistas dos receptores da angiotensina II (ARAII): Foram testados nos estudos clínicos em comparação com captopril em pacientes com IAM e insuficiência cardíaca. Estes não mostraram superioridade da nova classe. Houve, ainda, tendência a aumento dos índices de mortalidade total e morte súbita com esses fármacos ou com sua associação aos IECAs. Os ARA II são indicados para pacientes com intolerância aos IECAs devido aos efeitos adversos.

 

Hipolipemiantes: O uso de estatinas na CI fundamenta-se na redução de mortalidade e prevenção de novos eventos isquêmicos. O efeito não dependente dos níveis basais de colesterol, devendo a prescrição ser considerada para todos os pacientes com DAC.

As alternativas às estatinas, quando estas estiverem contraindicadas por eventos adversos, são o ácido nicotínico e a colestiramina. Os fibratos (p. ex., genfibrozila, etofibrato, bezafibrato, ciprofibrato) são usados no tratamento da hipertrigliceridemia, na falha das mudanças do estilo de vida e/ou quando os níveis de triglicerídeos forem muito elevados (maiores do que 500 mg/dL).

 

Redução dos sintomas e da isquemia miocárdica

Bloqueadores ß-adrenérgicos: São os fármacos de primeira escolha para o alívio dos sintomas isquêmicos, e também proporcionam benefícios na redução de mortalidade e de infarto. Eles possibilitam a redução do número de crises anginosas, do grau de isquemia e aumentam a tolerância ao exercício.

 

Antagonistas dos canais de cálcio: Diminuem a resistência vascular e aumentam o fluxo sanguíneo coronariano ao promoverem relaxamento da musculatura lisa, especialmente dos leitos arteriais, por meio da inibição dos canais de cálcio. Eles têm também efeitos inotrópicos e cronotrópicos negativos, diminuindo o número de episódios de angina. Constituem-se em mais uma alternativa disponível quando os betabloqueadores são contraindicados. Além disso, a angina de Prinzmetal responde muito bem aos antagonistas dos canais de cálcio.

 

Nitratos: Os efeitos hemodinâmicos e antianginosos desses fármacos ocorrem devido à vasodilatação venosa e coronariana, reduzindo a pré-carga, diminuindo o consumo de oxigênio pelo miocárdio e melhorando o fluxo subendocárdico. Os nitratos de curta ação, administrados via sublingual, são a primeira escolha para o tratamento e a prevenção de crise anginosa. Os nitratos de longa ação, administrados por via oral, são reservados para os pacientes com angina refratária em uso de adrenérgicos e/ou antagonistas dos canais de cálcio.

 

Procedimentos invasivos

Revascularização. Os pacientes que se mantêm resistentes ao tratamento medicamentoso otimizado são candidatos à revascularização do miocárdio. As duas abordagens alternativas são angioplastia coronária com a colocação de stent ou cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM). As alterações no estilo de vida e a terapia farmacológica não devem ser abandonadas, mas, sim, realizadas simultaneamente.

 

Angioplastia com implante de stent. Algumas das vantagens desse procedimento em relação ao cirúrgico são o fato de ser menos invasivo, necessitar de menos tempo de hospitalização e possibilitar o retorno mais rápido do paciente às atividades habituais. Com o advento dos stents associados à potente terapia antiagregante plaquetária, a taxa de reestenose reduziu de 30 a 40% (com balão) para 15 a 20%, em 6 a 8 meses, sendo essas incidências ainda menores com os stentsrecobertos com rapamicina e paclitaxel (5 a 10%). A angioplastia é indicada para pacientes sintomáticos com lesão uniarterial, mesmo na vigência de tratamento otimizado, ou com uma grande área do miocárdio em risco (área de isquemia evidenciada por cintilografia miocárdica maior do que 15%), com objetivo de redução dos sintomas e melhora da tolerância ao exercício, superando o tratamento clínico. Entretanto, não há impacto nos índices de mortalidade e ocorrência de IAM.

Em pacientes sintomáticos com lesões biarteriais com comprometimento da artéria coronariana descendente anterior (DA), com função ventricular normal e não diabéticos, ou sem lesão significativa de DA, mas com uma grande ou moderada área do miocárdio em risco, não há diferença entre CRM e angioplastia quanto à sobrevida. Entretanto, a angioplastia está mais relacionada à necessidade de revascularização subsequente, o que atenua seu custo-efetividade ao longo do tempo.

Esse procedimento é indicado também como alternativa à CRM em pacientes triarteriais/multiarteriais com boa função ventricular, quando houver anatomia favorável à angioplastia (escore Syntax).

 

Cirurgia de revascularização miocárdica(CRM). As recomendações dessa cirurgia levam em consideração a sintomatologia do paciente, a anatomia coronariana, a função ventricular e as provas funcionais de isquemia. A CRM objetiva melhorar os sintomas e a tolerância às atividades físicas e, em alguns subgrupos, aumentar a sobrevida e reduzir a taxa de novos eventos cardíacos. O seu efeito benéfico é proporcional à quantidade de miocárdio revascularizado. A cirurgia de revascularização miocárdica é indicada nos seguintes casos:

Estenose maior ou igual a 50% em tronco de coronária esquerda.

Estenoses proximais nos três vasos principais em pacientes com FE menor do que 50%.

Pacientes com doença de múltiplos vasos, incluindo DA com FE menor do que 50% ou diabetes.

Pacientes com acometimento de um ou dois vasos, não incluindo DA, mas com grande área isquêmica.

Angina incapacitante, com qualquer número de artérias envolvidas, esgotadas todas as opções terapêuticas não invasivas, mesmo sendo artéria secundária, e na impossibilidade técnica de tratamento por cateter.

 

Prognóstico

A incidência em dois anos de IAM não fatal e morte por CI em indivíduos com apresentação clínica inicial de angina estável é de 14,3% e 5,5% em homens e 6,2% e 3,8% em mulheres, respectivamente. Entretanto, o prognóstico pode variar consideravelmente dependendo da doença clínica, funcional e anatômica.

Estão associados a um pior prognóstico os pacientes que apresentam:

 

•Idade avançada; angina de início recente, instável ou refratária; sintomas e sinais de insuficiência

cardíaca.

•Incapacidade de realizar o estágio II do protocolo de Bruce na prova de esforço ou prova de esforço fortemente positiva (infra de ST maior ou igual a 1 mm antes de completar o estágio II, infra de ST maior ou igual a 2 mm em qualquer estágio, infra de ST por mais de 5 minutos após a interrupção do exercício, queda da PA maior do que 10 mmHg durante o exercício, surgimento de taquiarritmias ventriculares durante o exercício).

•Falhas de perfusão extensas na cintilografia de perfusão sob esforço.

•Comprometimento do tronco da coronária esquerda ou grandes áreas irrigadas pelos vasos comprometidos.

•IAM prévio com grandes áreas de necrose.

 

Caso Clínico Comentado

O paciente apresenta quadro clínico compatível com angina típica. A dor torácica preenche os três critérios de classificação de angina: localização, fator desencadeante e de alívio. Considerando a classificação de angina, idade e sexo, esse paciente apresenta alta probabilidade de ter cardiopatia isquêmica (probabilidade de 86 a 94%), aumentando a probabilidade pré-teste de exames diagnósticos. O início do tratamento é recomendado mesmo sem exames adicionais. Para confirmação diagnóstica e determinação prognóstica, um exame de imagem funcional deve ser solicitado. Os exames laboratoriais (p. ex., creatinina, hemograma completo, glicemia em jejum e perfil lipídico) têm como objetivo diagnosticar fatores de risco associados, como diabetes e dislipidemia, também pesquisar causas de isquemia, como anemia e doenças que conferem pior prognóstico, como insuficiência renal e síndrome metabólica.

 

Referência

1. Canadian Cardiovascular Society [Internet]. Ottawa; CCS; c2012 [capturado em 10 set. 2012]. Disponível em: http://www.ccs.ca/.

 

Leituras Recomendadas

Ashley EA, Myers J, Froelicher V. Exercise testing in clinical medicine. Lancet. 2000; 356 (9241): 1592-7.

Campeau L. Letter: grading of angina pectoris. Circulation.1976;54(3):522-3.

Cannon CP, Lee TH. Approach to the patient with chest pain. In: Libby P, Bonow RO, Mann DL, Zipes DP, editors. Braunwald’s heart disease: a textbook of cardiovascular medicine. 8th ed. Philadelphia: Elsevier; 2008. p. 1353-417.

Chatterjee K. Recognition and management of patients with stable angina pectoris. In: Goldman L, Braunwald E, editors. Primary cardiology. Philadelphia: W. B. Saunders; 1998. p. 234-56.

Cooper A, Calvert N, Skinner J, Sawyer L, Sparrow K, Timmis A, et al. Chest pain of recent onset: assessment and diagnosis of recent onset chest pain or discomfort of suspected cardiac origin. London: NICE; 2010.

DATASUS: Departamento de Informática do SUS [Internet]. Brasília: MS; c2008 [capturado em 10 set. 2012]. Disponível em: http://www2. datasus.gov.br/.

Diamond GA. A clinical relevant classification of chest disconfort. J Am Coll Cardiol. 1983;1(2 Pt 1):574-5.

Diamond GA, Forreter JS. Analysis of probability as an aid in the clinical diagnosis of coronary artery disease. N Engl J Med. 1979;300(24):1350-8.

Fox K, Garcia MA, Ardissino D, Buszman P, Camici PG, Crea F, et al. Guidelines on the management of stable angina pectoris: executive summary: the task force on the management of stable angina pectoris of the European Society of Cardiology. Eur Heart J. 2006;27(11):1341-81.

Fraker TD Jr, Fihn SD, 2002 Chronic Stable Angina Writing Committee, American College of Cardiology, American Heart Association, Gibbons RJ, et al. 2007 chronic angina focused update of the ACC/AHA 2002 guidelines for the management of patients with chronic stable angina: a report of the American College of Cardiology/American Heart Association Task Force on Practice Guidelines Writing Group to develop the focused update of the 2002 guidelines for the management of patients with chronic stable angina. J Am Coll Cardiol. 2007;50(23):2264-74.

Furtado MV, Camargo PVS, Guimarães JF, Polanczyk CA. Cardiopatia isquêmica. In: Rosito GA, Kuchembecker R, Berwanger O, Barros E, organizadores. Terapêutica cardiovascular: das evidências para a prática clínica. Porto Alegre: Artmed; 2007.

Gianrossi R, Detrano R, Mulvihill D, Lehmann K, Dubach P, Colombo A, et al., Exercise-induced ST depression in the diagnosis of coronary artery disease. A meta-analysis. Circulation. 1989;80(1):87-98.

Hannan EL, Wu C, Walford G, Culliford AT, Gold JP, Smith CR, et al.Drugeluting stents vs. coronary-artery bypass grafting in multivessel coronary disease. N Engl J Med. 2008;358(4):331-41.

Levine H. Difficult problems in the diagnosis of chest pain. Am Heart J.1980;100(1):108-18.

Marwik H. Current status of stress echocardiography for the diagnosis and prognostic assessment of coronary artery disease. Coron Artery Dis.1998;9(7):411-26.

Polanczyk CA, Furtado MV, Fuchs FD. Fármacos usados em cardiopatia isquêmica. In: Fuchs FD, Wannmacher L, editores. Farmacologia clínica: fundamentos da terapêutica racional. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2010. p. 818-42.

Serruys PW, Morice MC, Kappetein AP, Colombo A, Holmes DR, Mack MJ, et al. Percutaneous coronary intervention versus coronary-artery bypass grafting for severe coronary artery disease. N Engl J Med.2009;360(10):961-72.

Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de doença coronariana crônica angina estável. Arq Bras Cardiol. 2004;83(supl.2):7-40.

 

 

Conecte-se

Feed

Sobre o MedicinaNET

O MedicinaNET é o maior portal médico em português. Reúne recursos indispensáveis e conteúdos de ponta contextualizados à realidade brasileira, sendo a melhor ferramenta de consulta para tomada de decisões rápidas e eficazes.

Medicinanet Informações de Medicina S/A
Av. Jerônimo de Ornelas, 670, Sala 501
Porto Alegre, RS 90.040-340
Cnpj: 11.012.848/0001-57
(51) 3093-3131
info@medicinanet.com.br


MedicinaNET - Todos os direitos reservados.

Termos de Uso do Portal